Torrencial


A mão e a fé

tem impulso até ao

fim, assim é

a tua tatuada na minha,

damos joviais passos

flutuando nas poças

em instantes escassos,

procuramos refúgio

do franco perigo

os outros procuram abrigo

um porto seguro da chuva


desfazem-se no chão

com força

as volumosas gotas

e com força

nos alagam as roupas

até parecerem trapos

até o corpo brilhar

através dos irrequietos farrapos


em sentido contrário

andamos sob o rumor temporário

da borrasca que cobre a fala

rugimos, então

na escassez de compreensão

desviando-nos de guarda-chuvas

com cores infantis

colidindo com pessoas hostis

que procuram abrigo

nós procuramos refúgio

investindo por este lugar antigo

como se a Terra oferecesse

uma conclusão

ainda por descobrir

cerzida na ilusão

furtiva sob a falta de crença

gasta na sentença da narrativa


o espelho do abandono

preenche as ruas

e a cidade replica o outono

da nação encoberta

sob os toldos

em peitoris

na entrada do estabelecimento

que paulatinamente submerge

ante o poderoso sacramento

da liquefação


o fluído que se nutre é

invisível

até à denúncia da luz

fusível que captura mundos

todos procuram abrigo

nós procuramos refúgio

cabelos colados ao rosto

narizes a gotejar

no sol posto em

becos sem saída

desembaraçamos pela calçada

cruzamos a estrada

até que a chuva desista

e os animais saiam da toca

repentinamente o cheiro a

terra invade

os sentidos e a brevidade

do fulgor no solo molhado

invocando a natividade

amplificada nas cores e nos pormenores


multidões cercam-nos

ofegantes da pressa

ainda com restos da promessa

na aparência juvenil

férias ou renascimento até que

o normal funcionamento da sociedade

fragmenta a oportunidade

triunfam os deveres, os horários e a rotina

nas rodas da engrenagem

na titanesca guilhotina

da conquista planetária pela raça superior

tudo o que existe é inimigo e

já não procuram abrigo


nós ainda não encontrámos refúgio

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