Sem possibilidade de morfina


Oito da noite

na calçada esgotada

ao longo da rua dobrada

escalámos a coroa da cidade


lá fora o ordinário

das vidas e das mortes

alheias,

representantes incorruptas

das eras distantes


o destino

como mera desculpa

para continuar

devorar o caminho uma vez

cumprido

as palavras como néctar

dos deuses

enfeitiçam a iniquidade

onde se perde a santidade

por lá sacrificamos a nossa

fidelidade e virtude


deriva e fruição

no ar fresco medieval

prenhes as palavras de

todas as coisas:

O que puder ser dito

seja

o improferível

que se torne grito


sentenças carregam

vultos

ao serem decretadas

mentes poluídas

oxigenadas

pelo passado recente

tão evidente na gente abatida

beco sem hora de saída

tumores fundem-se com rumores

alastram para os órgãos centrais

falência multiorgânica

sem possibilidade de morfina


dentro da madrugada

- escuto.

rendo-me à impotência

da nossa cruzada

suicida

batalha silenciosa e invisível

eis-me campeão das causas perdidas

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