Quando não podes ganhar, perde à tua maneira

Atualizado: Jan 27




- Acho essa treta da gratidão, ridícula.

Mas hoje, ao despertar, olhou pela janela da sala e a lua estava tão perto cheia gorda brilhante bela épica magistral deslumbrante abismal que podia facilmente ter caído de joelhos, emocionado. Havia vida, sentia-se vida. Parecia a coisa certa a fazer. Mas não o fez.


- Então, porque não o fizeste? – perguntou-se.

- Porque acho essa treta da gratidão, ridícula. A quem vou agradecer? E pelo quê? – respondeu, num misto de dúvida e convicção.


A segunda vez que abriu a janela da sala, entregou a face ao frio envolvente da madrugada. Já não se via a lua. Isso entristeceu-o, mas não de forma consciente. Era algo intangível, inexplicável e assombroso. Era dessa forma que se sentia a maior parte do tempo. Fosse qual fosse a razão da sua aflição, mesmo que fossem os terrores nocturnos da morte, quando o dia nascia, limpava tudo. O mundo enchia-se de esperança e invencibilidade, purificado.

O tique-taque-tique-taque-tique-taque do relógio da sala, deixou, então, de ser o som dominante. O bulício da rua apoderou-se dos sentidos, com a sua algazarra feita do chilrear dos pardais, do ronronar dos motores ainda frios e dos apressados passos daqueles que, meio decididos, meio cabisbaixos, voltavam costas ao conforto do lar. Nesses, a dor inconsciente parecia mais grave. Crónica.

A rotina podia ser uma prisão ou uma dádiva, tudo dependia quem a vivia. Mas por mais tentativas de destruição que existissem, ela aglutinava-nos sempre. Invicta e incontestável.


Por isso, ele procurava conforto na repetição diária dos gestos, na previsibilidade de saber o que aconteceria a seguir. Tentava o controlo. Havia júbilo e regozijo no reencontro consigo mesmo. A doce certeza dos estores que, invariavelmente, se encontravam na mesma posição todos os dias. A três quartos, com as frinchas abertas, para que a luz penetrasse, mas não violasse. Para que as partículas de pó fizessem a sua dança.

Reconhecia graça no gato do terceiro direito do prédio em frente, quando, mecanicamente, parecia flirtar com o perigo. Posicionava-se no parapeito da varanda, estudando a trajectória dos pombos, que, claramente, o provocavam com voos rasantes e um incessante gurgulhar.

Também lhe agradava o caos na cadência sinfónica das portas dos prédios e dos carros, que abriam e fechavam nos mesmos locais, pelas mesmas pessoas e pelos mesmos motivos, todas as manhãs.

Havia sobretudo, o anúncio dum frémito de excitação, quando ele esfregava os olhos, ainda ramelosos e resistentes ao dia. Nessas alturas, gostava de os abrir brutalmente, encadeando-se quase ao ponto da dor, a fim de reabsorver, em forma de choque, toda a emoção da luz.


Haveria a quem agradecer tudo isto? Havendo, seria possível fazer pedidos? - A sua lista era longa e exigente. - E como entrar em contacto com o responsável?

- Esta merda é toda arbitrária. Só pode. Uns terem cancro aos 20 e outros poderem viver até aos 120. – gritou, revoltado.

O que se faz ou o que se deixa de fazer, não pode ter nada a ver com isso. Se não, que mal fizeram os putos do IPO e que bem fizeram os sacanas dos multimilionários?

- Que se foda isto tudo. Não tenho nada pelo que agradecer. Quero ou justiça, ou certeza. – exigia. - Nada me foi dado, conquistei tudo o que tenho e perdi tudo o que não tenho. Na verdade, nada interessa porque sou apenas um cadáver inconsciente da sua condição, à espera que ela se realize.


Se havia forma de ser eterno, então teria de ser deitado no meio da seara que se dobrava ao vento, como os longos cabelos dum gigante. Fechar os olhos e perder-se no céu. Ficar. Não se mover.

- Depois, com sorte, talvez possa esquecer a doença que me devora lentamente as entranhas – sonhou, avançando mais um pouco em direcção à Queda.

- Só não sei o que me vai arruinar primeiro: se o cabrão do mundo que esta raça miserável ergueu, se as minhas células terroristas que se reproduzem freneticamente no interior. Talvez o meu coração expluda em mil estilhaços de testemunhar tanta merda.


Eram 4 da tarde. Tudo estava longe de ser perfeito. Ele encontrava-se ligeiramente embriagado e enfartado. À sua volta, um exército de escavadoras faziam uma sinfonia infernal e o vento era tão forte que o irritava ainda mais. Estava também a ficar um calor insuportável. Coisas que o tornavam demasiado consciente da sua extinção. Ciente de que o seu corpo, o seu imprestável corpo, caminhava a passos largos para a Ruína. Arrastando o seu precioso cérebro no processo. Ou talvez fosse o cérebro que arrastava o corpo.

Ele não sabia. Sabia sim, que, a sensação era, ora dolorosa, ora aterradora.

Gratidão era o que menos sentia no momento. Também não sentia desespero ao ponto de desejar acreditar na Salvação a qualquer custo. Descobria uma estranha e reconfortante forma de prazer na ideia do Fim. Pelo menos, quando comparado com a servidão da adoração.


Experimentava algo semelhante à rebeldia dum guerrilheiro em inferioridade numérica, perdido em território inimigo e sem apoio na linha da frente.

Não, definitivamente não era gratidão o que sentia.

Era vontade de premir o gatilho.

Premir o gatilho e, rebentar com aquela porra toda.


38 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo