O Anarcristo - Parte IV e última



Continuação da Parte III


Desgraçados, passam a vida em permanente estado de guerra. Não aprenderam nada com São João e o Apocalipse. Os casamentos parecem duelos, os trabalhos parecem batalhas e as estradas, então, são um autêntico armagedão.

Uma das primeiras coisas que fiz depois de regressar, foi conduzir. Ou acreditavam que voava, como o Super-Homem (falando em falsos ídolos)?


O que raio se passa com os condutores desse mundo? Em 20kms de viagem, vi cada coisa. Desde piretes a vernáculo da pior espécie, passando por tanta violência gratuita e vinganças mesquinhas que até Pôncio Pilatos se envergonharia.

Mas não se ficam por aí. Qualquer fila para comprar bananas ou pão, resulta no mesmo. Para quê tanta pressa, se vão para a cova de qualquer maneira?

Na verdade, isso nem me surpreende, dada a confusão em que as vossas vidas se encontram. Cheias de cimento e barulho por todo o lado, híper-aceleradas em direcção a não fazer merda nenhuma de jeito.


O resultado é que, acabam por desprezar o que realmente interessa, como o amor. Não estou a falar do amor que os padres pregam, a tresandar a mofo e incenso.

Falo de fazer o amor. Dar o corpo ao manifesto. Sejam mais animalescos, no melhor dos sentidos. Percam-se na carne, suem, gemam, esfreguem-se uns nos outros e venham-se com alegria, não com apego. Nada dessa porcaria de masturbação usando um corpo alheio. Envolvam-se uns com os outros, amem-se.

O que fazem com os vossos orifícios ou instrumentos, não me interessa para nada. Por mim, podem enfiar ou ser enfiados onde mais gostarem. Eu, pelo menos, nunca tive problemas desses.

Quando andei pela Grécia antiga, os rapazinhos faziam mais sucesso do que as mulheres. Se em Roma, sê romano, na Grécia, sê grego. Mesmo que para isso tenham de limpar a cave a alguém.

Como se o meu pai não tivesse mais em que pensar, do que ver a pornografia barata e amadora da espécie humana.


Mas divago, neste buraco a que chamam casa.

A raiz do problema é que, a vossa espécie é uma manada preguiçosa que precisa de seguir alguém. Sejam deuses, padres, políticos ou celebridades.

Claro que, acabam em guerra interior porque querem ser algo que não são. Enganam-se e acabam enganados.

É preciso ser muito inocente para ser comido por políticos aldrabões, padres pedófilos ou celebridades ocas.


Ponham os olhos em mim: passei de um carpinteiro miserável no médio-oriente para o autor do livro de autoajuda mais vendido do mundo. Um ícone mais utilizado que o Che, o Elvis ou o Michael Jackson.

Admito que nem tudo é mau. Há comida que nem os ratos mais esfomeados da Judeia lhes tocariam, mas o álcool, isso tem qualidade.

Também há umas mulheres jeitosas por aí, uns homens bastante sedutores e alguns locais que ainda não conseguiram arruinar.


Como não chega dar cabo da Terra, ainda procuram vida inteligente noutros planetas?

Não vou contar-vos se há ou não, mas a existir, julgam que vão querer ter algo a ver com o que se passa aqui? Se forem realmente inteligentes, deixam-se estar escondidos.

Nem pensem em procurar outro planeta parecido com este para habitar. Fizeram a cama, agora deitem-se nela.


Devido a tudo isso, o meu pai – isto é o negócio da família – pediu para eu dar um olho às coisas por aqui. Ver se era preciso mais uma série de pragas. O costume.

Já lhe disse que não, que vocês são óptimos a castigar-se sozinhos. Isto está tão fodido que nem vale a pena ele incomodar-se. É uma questão de tempo até rebentarem com isto tudo, por conta própria.


Eu bem o tentei avisar que aquela treta do “crescei e multiplicai-vos” ia dar raia. Um gajo deixa cá um planeta com uns quantos macacos cheios de manias de grandeza, tira uma licença sabática e lá fica o planeta todo nesta desgraça.

Porra! Lá vou ter de inventar uma peste negra mais moderna para despachar metade de vocês, como fiz no séc. XIV.


FIM

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