O Anarcristo - Parte III


Continuação da Parte II


Já pensaram no que andei a fazer durante todos aqueles anos em que estive desaparecido? Pergunto porque, já ouvi histórias mirabolantes sobre tudo: desde ter estudado budismo na Índia até eu ser um extraterrestre.

Também há quem diga que estive apenas a dar uma mãozinha ao meu pai José (não o outro) na oficina de carpintaria. Nada disso, não podiam estar mais longe da verdade.

Até fundar o meu ministério, aos 30 anos, andei de boleia com a mochila às costas. Não literalmente mochila, entenda-se - ainda demoraria uns séculos a ser inventada - mas andei de saca ao ombro a viajar por todo o mundo.

Afinal, tinha de perceber se a vossa espécie merecia a salvação, ou não.


Estudei todas as religiões, cultos, seitas e o diabo a quatro. Desde as pagãs até às mais estranhas. Obviamente que, no processo, também experimentei os prazeres da vida. Como posso decidir o que é e não é legítimo, sem experimentar?

Desde putedo até drogas, valeu tudo. Foi por isso que disse:

- Quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra.

Provavelmente também porque estava bastante pedrado.

Não ia ser eu a atirar a primeira pedra. Posso ser muitas coisas, mas hipócrita não é uma delas. Também posso ser santo, mas santinho não sou de certeza.


Desapareci no pós-crucificação, mas aí foi porque já estava farto que me cravassem milagres. Chamavam-me por dá cá aquela palha. Não havia bêbado que não andasse atrás de mim para transformar o rio Jordão em vinho. Os pescadores não me largavam para eu andar por cima da água à procura dos grandes cardumes e não havia pessoa que não me pedisse para ressuscitar algum familiar.

E as maleitas? Qualquer coisa que acontecesse, desde acne a escorbuto, lá ia eu metido ao barulho. Era Jesus para aqui, Jesus para ali, Jesus para todo o lado. Sou filho de deus, não sou é tanso.

Por isso, pus-me a andar dali para fora. Não para o céu, claro. Que raio ia eu fazer lá?

Estive só naquela onda freak de viver numa cabana no meio do mato sem ninguém a moer-me os cornos. Passava os dias a ler, a cuidar da horta e dos animais. Ocasionalmente, lá ia vendo o que se passava no mundo. Uma vibração meio Thoreau meio Kerouac.


Sabia que, eventualmente, teria de voltar porque iriam esticar a corda, muuuuuito para além do limite.

Além disso, chega de gringos imbecis a empunhar armas em meu nome e no nome do meu pai. Basta também de árabes idiotas a fazerem o mesmo. Não gosto dessa coisa das armas. Lutar é mano-a-mano. Daí a história de dar a outra face. Nada de armas, armas são para maricas. Calma pessoal LGBT, dos de pé de salsa, não dos outros.

De uma vez por todas, metam na cabeça que, deus, há só um. E não é como pensam. Não existe nenhum velho de barbas no céu a ver tudo o que se passa na terra. É basicamente uma força cósmica que se manifesta das mais variadas formas. Essa é a razão pela qual existem terramotos e catástrofes naturais: é o planeta a sacudir parasitas como vocês do seu dorso. Assim como os cães fazem com as pulgas.


Eu sei, normalmente quem se lixa são os desgraçados. Mas provavelmente isso acontece, porque, há mais desgraçados do que ricos. É uma questão de probabilidade.

De qualquer das formas, viver deste modo não pode ser assim grande coisa. Não num planeta sobrepovoado, totalmente poluído e sobretudo num corpo com um prazo de validade tão curto. Que se torna ainda mais curto devido a toda a merda que enfiam lá para dentro. Comida rápida, tabaco, bebidas manhosas, stress e oxigénio indigno desse nome.

Depois, quando estão enrascados, ainda tem o desplante de chamar-me para limpar a porcaria.


No estado miserável em que isto está, nem sei bem o que resolva primeiro. O ambiente? A religião? As guerras? As famílias? O dinheiro?

O meu pai rebentou com Sodoma e Gomorra por muito menos. Comparado com o que fizeram, adorar falsos ídolos e sexo anal são brincadeiras de criança. Calma pedófilos, é no sentido figurado.


(continua...)

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