O Anarcristo - Parte II

Atualizado: Jan 24



Continuação da Parte I Tantas vezes me chamaram, que voltei. Também, era por dá cá aquela palha que usavam o meu nome. Já cansava.

E qual é a primeira coisa que vejo, quando chego?

O mundo completamente de pantanas por estar repleto de idiotas que deturpam as minhas palavras. O pior não são os que não acreditam em mim ou os que me criticam. Benditos sejam esses quando comparados com os que acreditam e que fazem guerras estúpidas em nome do meu pai. Esses são os mais perigosos. Mais vale acreditarem em Belzebu e fazerem umas missas negras tolas e coisas do género. Quando foi que eu disse terem todos de pensar da mesma forma?


Os orientais é que perceberam bem as coisas: é tudo uma questão de yin/yang. Eu existi ao mesmo tempo que Judas, porque, para cada coisa tem de existir o seu oposto. Complementam-se. Não é inimizade nem combate, é complementaridade.

Para não haver mal entendidos, deixem-me esclarecer já que não fiquei fodido com aquela brincadeira de Judas. Quer dizer, ser crucificado com uma coroa de espinhos no Calvário, além de doer um bocado, também é uma monumental seca. Mas tirando isso, foi uma óptima partida.


A maioria de vós não deve saber, mas eu e Judas tínhamos um jogo em que, estávamos sempre a lixar-nos um ao outro. Tipo irmãos, vocês sabem como é.

Ele achava que estava a ganhar quando fui crucificado, mas eu tive direito à ressurreição, ele não. Hahaha. Quando morreu, foi-se de vez. E ainda ficou a ser odiado por milhões. O nome dele é sinónimo de ofensa e tudo. O último a rir, ri melhor, Judas. Eu tinha-o avisado. Ou como diz na Bíblia (já não me lembro se foi Paulo ou Pedro ou quem raio foi), os últimos serão os primeiros.

Se os humanos não tivessem passado as últimas décadas obcecados com escravizar, explorar e dizimar os outros continentes, há muito que teriam aprendido essa história dos opostos com os chineses e os japoneses. Com os indianos também. Esses até de sexo percebiam.

Percebiam sobretudo que essa história de não haver sexo antes do casamento é completamente descabida.

Vá lá, a minha melhor amiga era puta. O que acham que fazíamos quando estávamos juntos? Rezávamos? O mais próximo da religião que estivemos foi quando o fizemos em missionário e na posição do bispo.

Já agora, se me estás a ouvir, José, meu pai, eu posso ser o filho de deus e tal, mas ao fim deste tempo todo ainda acreditas na imaculada conceção, oh meu grande cornudo?

Nunca se deve aceitar uma grávida para casar, até eu sei disso.


E a Bíblia? Ui, é melhor nem começar. Que chorrilho de tretas que aquela porra é. Nem sei o que será pior: se as aldrabices originais do Lucas, Mateus e essa turma toda, se a trafulhice das traduções. Aqueles desgraçados daqueles monges, por ignorância ou por medo, adulteraram aquela porcaria toda.

Esqueçam lá a Bíblia, o Corão, a Tora, o Tao Te Ching, o Bhagavad-gītā e essas tretas todas. Até porque, digo-vos já: céu e inferno? É só um esquema para as ovelhas não abandonarem o rebanho.


Quando alguém morre, vai tudo para o mesmo sítio. Tudo para debaixo da terra. E a alma? A alma não é alma nenhuma, é só uma consciência que perde o corpo. Depois, com esse trauma da perda da existência física, fica numa espécie de amnésia. Então desmantela-se e a sua energia reconfigura-se, tal como tudo o resto.

Pronto, acabei de resolver o maior mistério da existência. Satisfeitos?


Ah, mas esperem, não comecem já numa cruzada de saque, destruição, violação e homicídio à tripa-forra. Saibam que aquele queimado do Buda era o gajo que mais perto da verdade estava. Porque meditar ajuda. Ajuda porque alivia o trauma da morte para a consciência, de modo a não andar por aí perdida à toa. Pensem nisso enquanto gastam as próximas décadas em mais hedonismo consumista. Vocês sabem que não dá para levar essas porcarias todas que compram, para a cova, certo?


Continua na Parte III



11 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo