• Cobramor

Não somos grande coisa



frágil

o equilíbrio perde-se na

conversa distraída

seres sem saída em

dívida emocional


a mão no cabelo

atira tudo

para trás acelerando

o carro atrevido

na tarde primaveril

languida

mente pela espinha da

marginal com o vagar

necessário para nos moldar

na paisagem


jogo

de observação

entre as personagens

uniformes que povoam

o espaço e a nossa

marcha

lenta:

a) o idoso

sob o panamá arrasta-se

b) o casal adolescente

pratica o ócio,

c) o patrão e a secretária

absorvem-se brevemente

d) no desempregado

a culpa e mutilação

e) a estafa

dos desportistas à beira

do trabalho


explode

o sol no azul

quase branco do

céu deflectido

na superfície

oceânica

como uma lâmina

enquanto traga

a areia texturizada


repousa!

finalmente o motor

sucedem-se passadas

descalças

cujo som me conquista

leve e brusco e leve

rebenta!

um flirt

ridículo nos nossos corpos

inanimados

sobre o areeiro


mais tarde

acordam já

em alguma esplanada do horizonte

onde a liquefação da

cerveja se confunde com água

intempestiva esta

paz estilhaça-se

no cão que persegue

gaivotas sobrevoam-no em

círculos místicos e incompreensíveis


a língua de terra

em que estamos

flutua sem qualquer laço

dissolve-se

o dia

que se congrega

no surdo murmúrio

do quotidiano duro

- triunfo do mundano


sobram

um copo

vazio dois corpos

cansados os desejos

derrotados e os bagos

da ansiedade no

regresso