Mais um dia, mais um dólar


Qualquer dia se desfaz em

pequena morte transparente na rotina na corrente

condenação a uma fantasmagórica

existência de exclusão


deambulo em busca dum covil

que possa rebentar em mim

me encha com o doce ardil

da obediência

como um fiel em reverência

sou seduzido pelas massas

faces imaculadas

curvas purificadas em seda

expressões de alquimia

procuro deus nos pormenores

para encontrar agonia


desafio na aceleração irracional

faço-me vitória descomunal

em dias de brilhante solidão

azul luz cintilante

no espaço por preencher

palavras por conceder

corpos desencontrados,

estou

à procura de aliados

companheiros estropiados

parecem mais afortunados

ou mais deserdados

mas nunca iguais


caminho em pânico

de me tornar no destino

até desistir e repetir

ideias erodidas e

ausências evidentes,

embrenhado no ruído dos cafés

cerca de conversas banais

atitudes teatrais

pessoas estranhas e irreais

acendo um cigarro e recrio-me

aqui noutro tempo,

o presente como rasgão

sem ligação a nada


reina o alívio da televisão

altar de devoção pessoal

ou o monumento das compras

contemplação incompreensível

gente em posse irresistível

jamais apenas presente


minutos passam como um grito

na ânsia para ser preenchidos

o dilema é

aproveitar cada um

ou apenas deixar passar

até à hora marcada

reina o relógio

reina o calendário

até reinar o aniversário

até reinar a inesperada

emboscada da morte


a inaptidão agrava-se

no molde único da vida

onde a temos resolvida

capturar o criminoso futuro

até ou desejo ou ao medo

então, comprometidos

detidos e retidos

cedemos:

mais um dia

mais um dólar

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