• Cobramor

génesis revisitado


génesis revisitado


I – serpente

hey irmã

sexo fraco só mais um buraco

monte de vénus lábios clitóris vulva vagina

sempre feminina mulher-objecto decreto do aspecto

sempre apresentável desejável invejável fiável agradável descartável

bruxa feiticeira rameira alcoviteira meretriz imperatriz santa garganta-funda criatura imunda escrava gata brava assanhada noiva perfeita encontro de uma noite sensual frígida assexuada tudo e nada nada nada nada


hey irmã

deu-se finalmente o dia

em que tive uma epifania

percebi que não sabia

o que é uma mulher

ou outro ser qualquer


hey irmã

inteligente como a serpente

o paraíso não se afasta

por deixares de ser casta

uma só dentada não basta

para ser condenada a essa

Queda


hey irmã

corpo-campo de batalha secreta

pelo útero pela forma correcta

a irreal aparência sem falha

o ideal comportamento celestial


hey irmã

sim sim sim podes decidir o que vestir

sim um decote pronunciado

sim um vestido colado

ao corpo que é teu

sem um filisteu excitado

bradar: estás mesmo a pedi-las


hey irmã

objecto de adoração

justificação para o crime

amor oprime estupra violenta

aguenta aguenta aguenta

mais um dia pela família

mais uma hora no emprego

mais uma vida em vígilia

sacrifica só mais uma pela equipa



II – árvore


hey irmã

esse amanhã de que falas

não será um amanhecer

enquanto cada mulher

não for primeiro alguém

e só depois esposa ou mãe


hey irmã

são tantas as normas

e tão eficazes as formas

de dizer um homem não chora

que quando chega essa hora

eu sou o estereótipo

do tipo forte e calado


hey irmã

não é por eu mijar de pé

em vez de o fazer sentado

que tenho de ser elevado

a qualquer estatuto especial


hey irmã

não é por eu ter um falo

que hei-de cantar de galo

sobre as conquistas dos homens

porque da história rezam

lendas machistas e a sua glória


hey irmã

dizem que o homem é forte

mas sobre esta forma bruta

proclamo a verdade absoluta:

prefiro ser fragilizado

a reproduzir o patriarcado