• Cobramor

Escolhe a guerra

Atualizado: 12 de jan. de 2018

escolhe bem as tuas guerras;

estamos vencidos pelo cansaço apesar dos números

e condenados ao exílio apesar da ambição


sente que nada nos poderá salvar agora

de errar na noite futura

chamas nas estradas negras

ao longo das ruínas dos países

estendes uma mão em silêncio

enquanto mudo o rádio para fugir à loucura


o celeiro na beira da colina

assombra-nos com as portas vermelhas

e o precipício onde os anjos repousaram

sentenciados ao eterno labirinto da sedução

amantes colidem sorrateiramente no estacionamento

reinventando o jogo

espalham os fluídos pela pureza das famílias

mas eu não desisto:

ouve as minhas palavras


hordas de adoradores enfeitiçadas

pelo ecrã que governa o íntimo dos nossos actos

alguém se lembra ainda do passado?

alguém se importa ainda com o presente?

apenas mais um espectáculo

onde se confunde o actor com o aplauso

há quem reze pelo fim

há quem se imole em sacrifício a desconhecidos

mas há sempre um homem à boleia

em busca de novas oportunidades

nova vida nova mulher

um futuro estéril e desolado

e nós, porque ainda estamos aqui?

acompanha-me até à periferia onde a verdade se revela

e talvez a nossa alma renasça na combustão


escolhe bem as tuas guerras

já não temos a ira dos jovens

a união das classes

ou o ópio da religião