Elias saiu para comprar cigarros - Parte IV: Fim

Atualizado: Jan 27



Continuação da Parte III

O mundo do crime e da violência não eram propriamente estranhos a Micaela. Passara a juventude no Covil, um dos locais mais duros da capital. Lá, como em muitos bairros do género, as entradas dos prédios estavam todas viradas para dentro. O fim era certamente desencorajar os moradores de saírem. Era como que um labirinto fechado sobre si próprio, onde os prédios se apresentavam altos como masmorras e coloridos como se Walt Disney tivesse desenhado um inferno em vez dum império capitalista. De lá, não saía ninguém que não soubesse fazer pela vida, o que na maior parte dos casos, significava que os fins justificavam os meios. Talvez por essa mesma razão, o Covil estivesse em prestes a ser demolido para dar lugar a mais um condomínio de luxo privado para alugar à bifalhada.

Os ricos às costas dos pobres, ou seja, mais do mesmo. – Costumava dizer Micaela, com um encolher de ombros.


Mesmo nesse ambiente difícil, Micaela nunca estivera sequer próxima de ser presa. O mesmo não se podia dizer sobre a maioria das pessoas com quem crescera. Quase todos os seus conhecimentos de infância tinham já passado pela prisão, pelo menos uma vez. Fora através deles que Micaela havia adquirido as valências necessárias para sobreviver num mundo cão. Fora também no bairro que decidiu fisgar um gajo rico. Era a sua missão de vida. Não ser mãe, não gerir uma empresa ou seguir as pisadas das suas amigas. Nada de abrir cabeleireiros, gabinetes de estética ou ser administrativa para um cabrão qualquer que só queria passar a mão pelo pelo das empregadas. A cruzada de Micaela era viver de acordo com o seu instinto de sobrevivência. Desse lá por onde desse.


Claro que, para isso acontecer, em vez de andar a frequentar bancos traseiros de Seat Ibiza e Saxo Cup, decidiu subir a fasquia e investir em si própria.

- Se os ricos dizem que é preciso dinheiro para atrair dinheiro, vou apostar nisso. – pensou Micaela mal percebeu o grande esquema das coisas.

Muito do que tinha, gastou em roupa, maquilhagem, cabeleireiros, tratamentos de pele e dentistas. A ideia era que, quem olhasse para ela jamais adivinharia que crescera no Covil.

Livrou-se do ar de mitra típico das gajas do gueto. O seu cabelo já não era platinado, largou os canudos que as miúdas do bairro habitualmente usam e a dentição estava agora completa e alinhada. E branca. Abandonou a indumentária da Primark e, principalmente deixou de usar a roupa da Fubu que, guardou no fundo do armário. Só para não esquecer as raízes nem a humildade.

Os vestígios exteriores da sua proveniência desapareceram dessa forma.


Chegou mesmo a frequentar a universidade. Não para estudar, mas, porque considerava ter mais hipóteses de encontrar o que procurava.

Tinha razão. Foi lá que conheceu Elias. Na altura um proverbial virgem em praticamente tudo na vida. Um verdadeiro menino da mamã em busca de alguém para continuar o trabalho materno. Faltava-lhe praticamente toda a experiência necessária para vingar no mundo. Isso era então. Entretanto, os anos passaram e a sua sacanice revelou-se.

Por conhecer Elias tão bem e há tanto tempo, Micaela sabia como encontrá-lo. Conhecia os seus hábitos e vícios. Sabia também que o seu rasto era mais viscoso que o de um pedófilo numa escola primária. Um verdadeiro rasto de cadáveres emocionais.


Micaela sabia bastar apertar com um dos seus miseráveis amigos para saber o que queria. Opções não faltavam, pois, os compinchas de Elias eram tão ou mais manhosos do que ele. Qualquer um dos idiotas dos seus amigos seria passível de ser chantageado. Para isso, as informações de que Micaela dispunha sobre as suas indiscrições matrimoniais, eram mais que suficientes. Era, literalmente, encostar uma daquelas bestas à parede e xibavam-se logo. De todos, o provável era que Federico fosse o primeiro a dar com a língua nos dentes.

Federico era praticamente uma mulher com verga. Mole, demasiado emocional e amedrontado. A mínima pressão seria suficiente para o vergar.

Assim, Micaela foi esperá-lo à porta do trabalho. Não teve de esperar muito até Federico sair e mal ele dobrou a esquina, empurrou-o contra a parede. Agarrou-lhe, sem a mínima hesitação, as joias da coroa, com a experiência que geralmente apenas os homens possuem. Então, espremeu aquela massa mole toda, muito bem espremida. Depois torceu e apertou mais um pouco. Torceu para o outro lado, espremeu mais um pouco. Finalmente, virou para a esquerda, empurrando ainda mais e, nessa altura, deu um puxão. Encostou tanto a sua cara à dele que lhe sentia o bafo a whiskey barato a fermentar. Leu-lhe a expressão, misto de terror e excitação, e quando percebeu ter uma aberta, perguntou, com voz áspera e autoritária:

- Onde está o cabrão do teu amigo Elias, ó meu grande monte de merda? - Nem foi preciso insistir mais, à menção do nome de Elias e com os tomates verdadeiramente num torno, Federico, abanando como gelatina, admitiu de imediato:

- Anda com aquela ruiva das mamas grandes que estagia no escritório dele.

- Onde mora essa idiota? – questionou Micaela.

- Na zona alta, onde moram os manda-chuvas todos. No prédio ao lado do antigo cinema King. 1ºD. Não lhe digas que fui eu que te disse!

- Não te preocupes, ele vai ter mais em que pensar. – replicou Micaela, já com as costas viradas para Federico.


Micaela seguiu então de carro, directamente para o norte da cidade. Ali, as fachadas dos prédios estavam bem cuidadas e possuíam generosas e solarengas varandas. Tudo lembrava os filmes americanos. As avenidas eram largas e as árvores bem cuidadas. As mulheres passavam com ar seguro e de nariz levantado, dando ares de executivas com aspirações a CEOs machos. Ao passar por elas, Micaela não conseguia deixar de ser perguntar quantas daquelas gajas teriam realmente subido a pulso ao invés de subir na horizontal.

Não lhe parecia que, ambicionar ficar com o lugar de um homem na servidão dos escritórios, fosse melhor que controlá-los num casamento.

Mas talvez eu seja antiquada? – reflectiu, de si para si.

Provavelmente, o novo troféu de Elias era daquele género.

Aposto que nem executiva é – Disse Micaela, para ninguém em particular. Nem por isso os transeuntes deixaram de olhar para si. – Aquele traidor joga sempre baixo e fácil. Devia ser uma secretariazeca qualquer de terceira categoria, daquelas que se deixa comer na esperança de um dia ter uma carreira que seja só a do 113 da Carris.


Quando finalmente chegou ao prédio ao lado do antigo cinema King, Micaela esperou por uma oportunidade para entrar. O objectivo era dar o menos possível nas vistas. Assim que apanhou um homem com o colete da TV Cabo, entrou coladinha a ele. A partir daí, foi canja chegar ao 1ª D e abrir a porta com a radiografia que já tinha usado anteriormente para o mesmo efeito.

- Bem-dita a hora em que tive a hérnia - sussurrou, fechando a porta atrás de si.


Entrou silenciosamente, indo certeira em direcção ao quarto onde, imaginava que estivessem ambos. Via-se uma fresta de luz que brotava do interior, pois a porta estava ligeiramente entreaberta.

Cuidadosamente, Micaela conseguia ver Elias a dormir sozinho. Dormia de barriga para cima a roncar que nem o porco que Micaela sabia que ele era. Ouvia-se algum ruído de água a correr na casa de banho, o que deixou Micaela em alerta. Portanto, sem hesitar, trancou a porta silenciosamente para que a ocupante, que ela supôs ser a secretária mamalhuda, não conseguisse sair de lá. Com sorte, iria demorar até se aperceber.


Suave e taciturnamente, Micaela dirigiu-se à cama, tendo o máximo cuidado de modo a não acordar Elias.

Sem hesitar, amarrou-lhe as mãos nas costas. De seguida, tirou, sem o abrir, um saco negro da mochila, colocando-o na boca dele. Era o que faltava, ainda ter de ouvir as patranhas de Elias.

Então, com um ar de satisfação, deu um valente carolo na cabeça de Elias. Aí, ele despertou estremunhado. Nessa altura, tentou mexer os braços, mas sem sucesso Piscou repetidas vezes os olhos, e finalmente conseguiu ver bem o que se passava à sua volta.

Quando virou a cabeça, percebeu horrorizado que era Micaela quem estava atrás dele. Mais horrorizado ficou ainda, quando o ela o amordaçou e removeu-lhe os boxers.

De imediato, Micaela colocou à cintura um dildo, murmurando suavemente ao ouvido de Elias:

-Vais adorar isto, Elias.

FIM




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