Elias saiu para comprar cigarros - Parte III

Atualizado: há 2 dias


Continuação da Parte II


Apesar de tudo isso, ou talvez fosse devido a isso tudo, Elias tinha sempre um lance de parte. Uma gaja qualquer para se entreter quando estava entediado ou as coisas não eram como achava deverem ser. Era para lá que ia a correr nos dias em que “trabalhava até tarde” ou “ia sair com um cliente” ou “ia à Luz”.

Quando começou a suspeitar de tantas saídas, Micaela deixou a filha com a sua mãe e seguiu Elias. Foram várias as vezes em que fez de detective e em todas, as suas suspeitas concretizaram-se.


Um dos dias, ou, porque estava mais cansada do que o habitual ou, porque estava saturada do festival de javardice de Elias, foi mais longe do que o habitual. Esperou noite dentro que a badalhoca em causa saísse e usou o velho truque de abrir a porta com uma radiografia.

Foi bastante simples, havia vídeos no YouTube a demonstrar como fazer. Além disso, tempo e motivação para aprender era coisa que não faltava a Micaela. Nem experiência em actos ilícitos.

Uma vez lá dentro, passou uma minuciosa revista à casa. Procurou as joias que Elias certamente lhe oferecera, pois se alguém era o campeão dos clichés, era ele.

Encontrou também um maço de notas, que guardou na sua carteira. Na gaveta da ‘lingerie’ descobriu uma Walther PPK, um saquinho de coca e três charutos de erva que, sem hesitar, fumou. Um após o outro, bafo a bafo, até só restar cinza.

Antes que lhe a erva batesse, guardou a coca no bolso interior do casaco para não se esquecer. De seguida, devolveu a arma gelada ao local onde a encontrara.

- Ena, a gaja pode ser manhosa, mas a erva é de categoria – disse para si própria, enquanto sorria, deliciada com a vingança. Vingança, fria vingança. Como mandam os manuais.


A urgência agora era satisfazer aquele apetite voraz que acompanha sempre as mocas de erva e a que os gringos gostam de chamar munchies. Micaela abriu o frigorífico, onde encontrou uma garrafa de champagne – Serve – pensou, enquanto enchia o copo, abrindo o congelador em busca de algo doce.

- Gelado, era mesmo o que me apetecia – matutava, contemplando o interior do aparelho, com os olhos vidrados. Por sorte, havia um pote, ainda fechado, de Ben & Jerrys Chocolate Fudge Browny.

Comeu-o, saboreando cada bocado. Não apenas por ser dos que mais gostava, mas aproveitando também para desfrutar das circunstâncias que a conduziram àquele momento.

- Que se foda, se essa cabra voltar... – atirou em tom de desafio, para o vazio do apartamento. - Ela que venha.


Rapidamente, o gelado associado ao efeito da erva entrou em interacção com a adrenalina da situação. Micaela começou a sentir borboletas no estômago, misto de concretização da vendetta com aquela saborosa bomba calórica de açúcar e leite.

Naquele momento, a vingança afigurava-se uma e apenas uma. Como se fosse a mão do universo a conduzir Micaela em direcção à justiça divina.


Descontraidamente, Micaela baixou as calças. De seguida baixou as cuecas, colocou-se de cócoras e descarregou, majestosamente, os intestinos na almofada da cama.

Contemplou o seu feito, agradada. Era uma bela poia, sólida, cor de ouro velho e bem formada. Qualquer gastroenterologista a aprovaria.

Depois saiu. Feliz, concretizada e aliviada.


(...) Continua na Parte IV.

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