Elias saiu para comprar cigarros - Parte I

Atualizado: há 6 dias

Era um dia normal, como todos os outros. Comer, beber, foder, cagar, trabalhar e praguejar. As coisas do costume. Tudo normal.

Normal era também Elias ir para o café ver o Benfica, porque em casa havia sempre interrupções. A mulher passava o tempo a chatear para ele ajudar a fazer qualquer coisa - fosse desentupir o ralo, levar o lixo ou apanhar uma aranha. Malditas feministas e a merda da igualdade.

Ou então, era o raio da miúda a querer ver o Canal Panda. E se Elias não mudava, lá se punha a pirralha aos saltos à frente do aparelho a fazer uma monumental birra:

- Quero ver a Pata – dizia a criança, referindo-se àqueles desenhos animados ridículos sobre um puto de 5 anos com meia dúzia de cães que ajudavam adultos tão idiotas que nem os sapatos conseguiam atar sozinhos. Ainda por cima um dos cães era bófia.

Quantas vezes ele não desistiu e mudou de canal para não ter de dar uns açoites à miúda. Um correctivo mesmo daqueles à moda antiga. Não que fosse contra isso, pelo contrário, mas a mulher é que nunca mais ia fechar a matraca com essa história. E tudo era preferível a ouvir as ladainhas incessantes que saíam da boca dela. Motivo havia sempre, por isso mais valia não arranjar mais.


Pior que tudo isso, só quando os cabrões do apartamento do lado, que recebiam o sinal da TV fibra alguns segundos antes, gritavam golo antes de João saber como a jogada ia terminar.

- Goooooooolo – ouvia-se, quando na televisão de Elias, ainda a bola não tinha saído das mãos do guarda-redes.

Isso deixava-o pior que estragado, portanto lá largava ele uma asneira das grossas pela janela:

- Baixem lá mas é a porra da televisão, pá. Antes que eu me passe com essa merda, foda-se.

Nessas alturas Elias ficava a sentir-se da mesma forma como quando se vinha sem se aperceber. Quando tal acontecia, Elias pensava:

- Vá, ainda dá para aguentar mais um bocado. Vamos lá, só mais um bocadinho – invocando ao mesmo tempo todas as imagens de gajos peludos na praia e jogadores da bola aos abraços que tinha guardado para estas ocasiões.

Mas subitamente, quando se apercebia, já a molhenga tinha saído toda para fora.

Tudo bem que um orgasmo é um orgasmo é um orgasmo é um orgasmo, mas de que serve comer se não se sente o sabor da comida? A barriga pode ficar cheia, mas o apetite fica por saciar e o mais grave é que nem dá para montar outra vez o cavalo logo de seguida.


Por essas e por outras, optou pela estratégia habitual e disse, já meio virado para a porta:

- Vou ao café ver o Benfica – fechando a porta de imediato para não ter de ouvir a resposta.

Mas dessa vez, Elias não só não apareceu depois do jogo como nunca mais voltou para casa. Durante 3 dias seguidos, a filha chorou incessantemente pelo colo do pai, que lhe parecia quente e seguro. Provavelmente porque não tinha termo de comparação.

Mas a sua mulher Micaela é que não ia em cantigas. Chorar não era com ela. Chorar era para vítimas e vítima era coisa que ela não era. Além do mais tinha a certeza de que Elias estava de perfeita saúde, muito provavelmente andava era outra vez enrolado com um dos seus lances.

Micaela conhecia perfeitamente todas as badalhocas com quem João tinha andado metido durante os anos em que estavam juntos. E se fazia vista grossa era porque ele trazia para casa muito dinheiro. Muito dinheiro mesmo. Mais do que o suficiente para ela não ter de trabalhar. Porque, se havia coisa pior do que ser cornuda, era ser escrava.

(...) Continua na Parte II.



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