Crónicas de um vírus - Dia 9 /19.03.2020: Deus, pátria, família

Atualizado: Mar 9


Mesmo com o aparelho demoníaco desligado, é um desafio não ser emaranhado pela Dança das Estatísticas e dos Gráficos. Quando todos os que estão à minha volta não conseguem simplesmente desligar, torna-se difícil mesmo que queira. Só se fala deste maldito assunto. É pior que o 13 de Maio, o campeonato de futebol ou o Iphone novo todos juntos.

Para que contribuem estas constantes actualizões de informação, se não para um pânico generalizado primeiro e uma indiferença gritante, depois?


Ontem foi Dia do Pai e a Patroa fez um bolo e no meu livro, bolo é sinónimo de celebração. Contra tudo e contra todos, celebrámos. Um único adereço de festa num ambiente funerário global.

Se não houver mais nada, podemos celebrar o silêncio e a diminuição da poluição, excepto a noticiosa, claro. Finalmente o planeta parece realmente Azul. Se isto não é a prova cabal de que não há pior praga do que a humanidade, então nunca aprenderemos. Até os macacos são mais evoluídos que nós, o pior que fazem é atirar bosta às pessoas.

Já nos, somos altamente contagiantes. Mas o pior contágio que provocamos é a proximidade ao Apocalipse. Não este prelúdio maricas que nos fechou em casa a ver mais televisão idiota para nos embrutecermos colectivamente ainda mais. Não este ensaio geral debilitado que nos mantém confortavelmente sentados no sofá a encher a pança. Não todas as tretas pseudo espirituais da Era do Aquário e de Kali Yuga para parecer-mos melhores do que realmente somos. Falo do verdadeiro Apocalipse, ao estilo de São João. Aquele que é anunciado pelas trombetas, que traz anjos de asas negras. O que carrega consigo a marca da Besta, a punição dos ímpios e a recompensa dos justos. Acreditando que haverá alguém justo neste planeta.

Como tantos parecem crer acreditar, poderemos estar a atravessar um período de crescimento enquanto espécie. E crescer dói sempre. Mas às vezes fica só a doer e simplesmente não crescemos.



Assim que alguns de nós deixam de fazer o que é normal, o universo parece suspirar de alívio. Gostamos mesmo de abusar do privilégio miraculoso que temos, de existir como uma anormalidade estatística, uma aberração cósmica.

A maioria das pessoas, trabalha agora em casa. Enfiados num T2 de 100m2 com putos e cônjuges. Deus, pátria e família do novo milénio em modo mashup meme viral para uma qualquer rede social. Embora Deus pareça ter abandonado o edifício, a pátria não oferecer grandes razões de orgulho e a família ser aquilo que ansiávamos para escapar ao trabalho mas que, agora, em jeito de tudo ao molho e fé em Deus, é só mais uma merda da qual queremos refúgio. Só que, não há refúgio. Os refúgios fecharam todos e nem as morgues nos aceitam, não vá haver contágio. Gajos que põem pão na mesa a vestir, maquilhar e costurar cadáveres têm medo de morrer? Já nem com um cangalheiro se pode contar.


Mais umas semanas disto e a obesidade e a violência doméstica vão parecer Auschwitz, Dachau e Treblinka ao pé dum vírus que não entra em casa sem ser convidado. Que até limpa os pés e lava as mãos antes de se sentar à mesa.

Além da pobreza que se adivinha – que, como dizia a Guru social Isabel Jonet aos fãs de bifes, significa estarmos a viver muito acima das nossas possibilidades, talvez tenhamos de respirar apenas uma em cada três vezes. E beber água potável apenas metade das vezes em que tivermos sede. Comer apenas quando for preciso para trabalhar. Porque o trabalho liberta, não fosse essa uma das poucas razões para se poder sair de casa. Ou dá alegria, dependendo do filósofo político de eleição.


Da minha perspectiva de bicho-de-mato, a diferença de antes do vírus para agora, é que não costumava passar por aqui ninguém. Por estes dias, é uma autêntica roda viva de caminhantes, passeadores de cães, corredores e ciclistas. Maldito vírus que não deixa isolar-se a única pessoa que realmente queria.

Para alegria do meu coração, a primavera avança. Está-se pouco nas tintas se nós estamos cá ou não para a apreciar e simplesmente avança. Pequenos nós verdes e vermelhos nas ainda jovens pernadas da nova figueira perto do portão, começam a surgir. Os figos já rebentaram e os abrunheiros estão numa verdadeira orgia florida. As rolas e os melros bailam loucos de felicidade, as andorinhas fazem voos rasantes, e as poupas e os papa-figos todas as madrugadas vão confirmar se já há algo para petiscar. E a luz, oh deusa, a enternecedora luz primaveril que faz a minha alma explodir de emoção, saborear o eterno e ao mesmo tempo a dor da sua efemeridade. A luz, que quero inspirar, gravar nas pupilas e insuflar-me dela


Aproveito para tentar que a horta cresça, apesar do idiota do meu cão novo insistir em escavar a terra depois de eu colocar as plantas. Os recursos também são limitados, mas havendo arroz para várias semanas, podem vir com tudo o que têm. Não vai ser uma hecatombe fofinha num estado de emergência que não é carne nem peixe nem seitan nem tofu que me vai impedir de fazer sei lá o quê que não sabia que queria fazer até mo proibirem.

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