Crónicas de um vírus - Dia 8 / 18.07.2020: A conspiração de ontem é a realidade de amanhã

Atualizado: Mar 9


Ah, as teorias da conspiração.

O que hoje são notícias falsas, amanhã são factos consumados. Se me dissessem, há dois anos, que em 2020 ia viver numa versão bera dum filme de ficção científica dos anos 70, não acreditaria. Que as pessoas iam andar de máscara e luvas. Que isso ia ser a normalidade.

- Teorias da conspiração – diria a maioria das pessoas.

E aqui estamos nós, em 2020, a viver a teoria da conspiração da realidade paralela do vírus.


Portanto:

Que a China fabricou o vírus no laboratório para desvalorizar as acções das empresas ocidentais e comprar tudo ao desbarato.

Que a China fabricou o vírus no laboratório para atacar o ocidente.

Que foram os EUA para derrubar o regime chinês

Que é obra divina para castigar a humanidade.

Que foi vingança da natureza.

Que foram os repitlianos.

Que foi o 5G.

Que não existe.


Por outro lado:

Que fiquem em casa, vai ficar tudo bem.

Que desinfectem as mãos, vai ficar tudo bem.

Que usem máscara, vai ficar tudo bem.

Que mantenham a distância, vai ficar tudo bem.

Que desinfectem as compras, a comida, os detergentes, as maçanetas das portas, os corrimões.

Lavem as mãos depois de defecar ou urinar, com ou sem vírus --> Esta parece ser a que suscita menos dúvidas, mas também a menos praticada. Conseguimos enviar homens para a lua, máquinas a marte e o diabo a quatro. Fizemos tudo isso, sem a maioria de nós lavar as mãos depois de arrear o calhau. É um milagre estarmos vivos. Claro que um vírus nos apanharia, eventualmente. Parece que, a peste negra não serviu de grande coisa.


Não é fácil perceber de que lado está a conspiração. Ou o que é mais surreal. Nem a verdade.

Como é hábito, ninguém sabe nada, excepto os manda-chuvas. E como é também habitual, quando for tarde demais, vamos saber tudo. Quando já não houver nada que se possa fazer.

Cada amigo que tenho, dá uma explicação diferente.

O maluquinho das realidades alternativas diz:

- Isto foi fabricado pelo homem para obrigar-nos a levar com uma vacina feita de nanopartículas para nos controlar.

Parece surreal, é certo, mas também o que está a acontecer. Confesso que não percebo, onde encaixam as redes de pedofilia no meio de tudo isto, mas esta malta enfia os pedófilos em todo o lado. Ao menos, desta vez, não chegámos a falar de OVNIs. O Bernardo é das poucas pessoas com quem falo que não me deixa a sentir que o maluco sou eu.

O guru da naturalogia diz:

- Os vírus não existem, isto é uma infecção ternária entre 3 factores: alimentação, frio e medo.

O Coelho é o único gajo com que falo que não me faz sentir que o extremista sou eu. Todos os outros me tratam como se fosse louco. Deixam-me falar, é certo mas olham para mim com aquela cara com que se olha para alguém que diz ter visto a cara de Jesus nas torradas de pequeno almoço. Logo eu, que nem sequer tomo pequeno-almoço.

Às vezes também penso isso sobre mim. Nessas alturas, anseio por pensar em acções da bolsa, jogos de futebol ou pornografia. Mas nada me parece tão interessante como atrofiar com coisas simples.

Há sempre alguém que me fala da Navalha de Occham. Raramente a explicação para fenómenos complexos é a mais simples. Até porque, seria uma seca brutal se se resolvesse tudo assim. OK, talvez não neste panorama, mas antes.

Pronto, estamos efectivamente em estado de emergência. Conseguiram finalmente um pretexto para não terem de continuar a fingir que estamos em democracia.

Na prática isso parece significar que não podemos sair de casa a menos que seja para abastecer, trabalhar ou assistência a terceiros. A pena por desobediência é um ano de prisão:

- Ah, senhor guarda, saí só para apanhar um pouco de ar.

- Apanhar ar é um delito previsto no novo código civil ao abrigo do estado de emergência. A menos que esteja a comprar o ar numa loja, a passear o ar com uma trela ou a usá-lo para ajudar alguém da família, considere-se detido.

Num cenário destes, ao menos apanhar sida na prisão não seria uma preocupação assim tão grande. Assumindo que o medo seria maior que a fome, quando o sabonete caísse para o chão. Bendito seja o vírus.


Mais grave do que haver ainda menos liberdade do que habitualmente é que, o usufruto dessa liberdade fica ao critério da polícia. E todos sabemos o critério da polícia. Varia consoante a bebida de eleição, o lado para que acordam, a cor da pele, o local onde se mora e o recheio da carteira. Portanto, cabeça baixa até ser altura de a erguer. Se tal chegar a acontecer. No meio disto, a Patroa ontem saiu para comprar bens de primeira necessidade, de máscara e luvas, como mandam as regras. Nunca fui bom a seguir as regras, mesmo que isso me matasse. Fiquei por aqui. Sem máscara, sem filmes.

Se o preço a pagar por existir é viver como se num bloco operatório, entrego já a minha demissão.


Se é preciso esta parafernália para sair de casa, talvez seja melhor mesmo não sair. Talvez não seja suposto a nossa espécie andar por cá, nesta altura?

Quer este vírus seja como o vendem ou não, as suas consequências serão muito piores do que a doença em si. Da pobreza à escravidão, iremos passar por tudo.

Se sobreviver a esta, a próxima não me vai apanhar desprevenido. Ar de ermita já tenho, só falta a caçadeira e os flashbacks ensandecidos para manter os estranhos longe.

- Sai da minha propriedade, forasteiro – direi eu com uma arma na mão e um boné à camionista na cabeça.

Só faltam os zombies para esta merda ser tirada a papel químico de um filme do Romero. Vá, de um remake manhoso em português, daqueles em que o som é tão mau que não se percebe nada do que dizem. Felizmente.

Curioso, segundo se diz por aí, é isto coincidir com a Páscoa e com o número 2020. Ou então não. Estamos é com demasiado tempo livre nas mãos. E muito acagaçados também.

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