Dia 7 / 17.07.2020: Velhos obscenos


Pensávamos que isto ia ser uma coisa rápida. Passava num instante e estávamos de volta à rotina do costume. Assim como vivíamos: um almoço rápido para voltar ao trabalho, despachar uma última coisa no escritório antes de ir para casa e conduzir bem rápido pelos semáforos já amarelos e nos traços contínuos para ainda a apanhar os putos acordados. Depois, acelerar pelo jantar e as tarefas domésticas até cair na cama e repetir tudo de novo. Engolir o pequeno-almoço, pé no acelerador até ao trabalho. Um continuum inalterado, um loop incessante.


Mas já não somos nós a ditar a velocidade. Apenas nos sujeitamos a ela, sem artifícios. É uma força invisível que toma as decisões por nós. Sempre foi. Alguns chamam-lhe Deus, outros, natureza, outros ainda, cosmos. Pouco importa.

Seja lá o que for, orquestra tudo. E a rapidez com que assumimos que este incómodo se iria resolver, já não parece uma possibilidade.

O fim não está à vista. Não há luz ao fundo do túnel, nem sequer se vê a entrada do túnel. Talvez a esperança não se tenha extinguido, mas não traz prazo. O problema da esperança é que, traz expectativas. O problema das expectativas é que, trazem desilusões. O problema das desilusões é que, bem, desiludem. E ninguém sabe lidar com isso.


Independentemente da perspectiva, muitas pessoas parecem agora reconhecer a existência das outras. E sobretudo validar o sofrimento alheio. Algumas colocam-se no que acreditam ser perigo de vida para ajudar outras, sobretudo velhos sozinhos. Levam-lhes as compras a casa, medicamentos e outros bens. Às vezes, um pouco de companhia. Longe de mim, querer ser cínico, mas, onde estava esta preocupação nas últimas décadas, quando começámos a despejar velhotes na sala de espera para a morte, chamada lares de terceira idade? E onde estará essa preocupação toda, quando a novidade se gastar?

Bem sei, é tudo uma questão de perspectiva. Mas a perspectiva conta. Dizer:

- A morte persegue-nos – é o suficiente para a morte nos perseguir. Por outro lado, se não o dissermos, ela vai perseguir-nos na mesma. Mas talvez a vida seja um pouco melhor, se não estivermos sempre a pensar nisso.


Numa altura como esta, deve haver mais pessoas a questionar o processo de Deus do que propriamente a sua existência. Estamos na entrada na cova do leão, e esse é o local onde todos nos revelamos crentes. Mesmo quem, como eu, nunca teve a certeza da existência de deus, fosse ele um velho barbudo, um ancião árabe ou um judeu vingativo. Com ou sem certeza, sempre ansiei por algo mais. Não estou pronto para enfrentar a extinção sem algum conforto. Seja qual for. Mesmo que seja o raio duma fantasia.

Talvez a dúvida seja a maior prova de fé que se pode dar. A excepção que confirma a regra.

Qualquer que seja a entidade, deus ou deusa, ocidental ou oriental, tudo isto é demasiado parecido com uma piada de mau gosto contada por um daqueles imbecis com aspirações a ser um comediante. Uma piada seca, sem punch line.


A existir uma divindade, terá de ser idosa. Aquilo do início dos tempos e assim. E como tal, essa criatura, estará certamente saturada da forma como tratamos os nossos velhos. Sendo também ela própria, velha. Farta de encararmos os nossos idosos como seres descartáveis e incomodativos. Pessoas que se borram, baralham e barafustam. Tanto, que nos quis obrigar a assumir responsabilidade pela sua sobrevivência.

- E já que gostam tanto de interagir uns com os outros através de ecrãs, pois agora não o poderão fazer de outra forma, sob pena de morrer ou matar, ao estilo da roleta russa. E como a única coisa de que parecem tirar verdadeiro prazer é comprar merdas, mesmo que o preço seja a integridade do próprio planeta, divirtam-se a fazê-lo através de ecrãs. Não restará mais nada durante muito tempo. Estou apenas a oferecer-vos a vida que sempre quiseram.

- Agora sim, podem bater todas as punhetas que quiserem no Youtube, até o prepúcio ficar em carne viva. Insultem-se no Facebook até à morte e falseiem o glamour da vida no Instagram. Durante muito tempo, não terão mais nada para alimentar esses egos inchados e desproporcionados.

- A propósito, isto é uma lição, não um desafio para superar. É para ficarem quietinhos no vosso lugar a receber uma lição de humildade. Isto não uma é guerra para vencer. Não há como vencer, excepto perdendo. Nada voltará a ser como dantes. Nada voltará a ficar bem. Aliás, nada estava bem antes. Portanto, mais do mesmo, OK?


Para onde se envia o currículo para profeta do apocalipse? Estou preparado para, diariamente, apresentar-me semi-nu, barbudo e enlouquecido na baixa gritando por um megafone:

- Arrependam-se! Arrependam-se que o fim está próximo!

Os outros, não sei. Mas eu, há muito que estou arrependido.

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