Crónica de um vírus - Dia 2 / 12.03.2020: Limpar o cu ou caos

Atualizado: Fev 8






É difícil saber o que pensar. É igualmente difícil não pensar.

Mais complicado ainda é não sucumbir. À loucura, ao pânico, ao terror.

O maior desafio de todos é, não fazer o oposto. Pensar que é tudo uma aldrabice ou uma palhaçada. Porque geralmente é.


Após uma semana a resistir, o governo ordenou o fecho as escolas. Uma das consequências foi as empresas decidirem enviar os trabalhadores para casa. Não de férias, compreenda-se. Isto para os que têm possibilidade de teletrabalho. Os outros, que se lixem. Os que atendem o público, os que fazem obras, os bombeiros, os dos transportes e mais uns quantos milhares. Mais da mesma luta de classes. Sem classe absolutamente nenhuma.

O capitalismo vive, mesmo que a soro. Debilitado e manco, mas sobrevive. Arrasta-se, mas mexe-se. E continua a devorar-nos. Primeiro o cérebro, depois a alma. E finalmente o corpo.

A nossa saúde interessa, apenas enquanto alimentar a sua.

Nós importamos como as formigas que alimentam a rainha importam. Obreiros, tarefeiros, soldados, obedientes e em sentido. À espera de ordens. É para isto que existimos.

A alternativa seria fechar rigorosamente tudo e lançar no caos milhões de pessoas que dependem do capitalismo para a sobrevivência básica. Para comida, água, higiene e entretenimento. Ou como diziam os situacionistas, trocar a possibilidade de morrer de fome pela certeza de morrer de tédio.


Não consigo evitar que uma parte de mim, (a melhor ou a pior?) deseje que isto seja o fim de tudo. O descalabro desta coisa acéfala, simpaticamente denominada de democracia. Que pouco ou nada fez para merecer o nome. Mesmo que Churchill eventualmente tivesse razão e a democracia fosse a pior forma de governo, excepto todas as outras. Mas que sabe um bife arrogante movido a xerez e charutos, sobre o que é a vida?

Então, surgem-me visões de grandes impérios a ruir, torres em chamas, estradas barricadas, carros capotados, massas humanas armadas e desesperadas em busca de algo. De qualquer coisa. Depois, as inevitáveis e frequentes catástrofes naturais. CAOS, porra. O CAOS, o cabrão do CAOS. Agora! Gritem comigo, assim com a boca cheia de CAOS, como se fossem bocados de vidro. Mastiguem bem a palavra: CAOS


Se o capitalismo colapsasse repentinamente, talvez se dessem ainda mais mortes do que pelo vírus. Por este, ou por outro qualquer. Assim, vai fazendo os seus contorcionismos típicos, truques de mágico barato de rua. E nós a olhar para a boca, enquanto as mãos fazem o que querem, sem nos apercebermos.

Quando isto chegar ao fim – se tal acontecer – nada voltará a ser como dantes.

A crise económica a que sobrevivemos a inventar empresas e negócios regressará com mais pujança. Muitos vão perder o rendimento e muitos outros não terão lugar nas fileiras dos assalariados. Alguns, não conseguirão adaptar-se.


Eu não conseguiria. Eu não conseguirei. Eu não quereria. Eu não quererei. Há mais do que uma forma de morrer, tem de haver mais do que uma forma de viver.

A vida tem que ser mais que apenas satisfazer as necessidades básicas. Comer e cagar e limpar o cu. A coisa mais importante deste apocalipse. Não o esqueçam. É ter o cu limpo.


Para já, todos sustemos a respiração à espera que isto passe. À espera de dias melhores. Como se nunca os tivéssemos tido. E o que fizemos com eles?

Esperamos para poder projectar a nossa existência em novos objectos. Reinventando, entretanto a forma como nos relacionamos uns com os outros, com menos manifestações de carinho e afecto, é certo, mas também com menos distrações. Menos escapes. Agora, um para um. Mano-a-mano, sem intermediários. A sentir cada golpe. Violentamente, face a face uns com os outros e com a nossa mortalidade. Confirmando a cada segundo, se ainda estamos vivos. Se não temos tosse ou febre. Se não estamos condenados. Se o mundo como o conhecemos, aguenta isto. Se nós aguentamos.


O problema é que situações destas vão estar sempre a acontecer. Vai haver sempre vírus, crises e merda.

Não é por termos inventado relógios e calendários que o tempo é uma linha recta. Nós não controlamos absolutamente nada. Essa é uma ilusão que começou agora estilhaçar-se. CRASH PUM. BANG. POW.


Quão irónico é, que os maiores parasitas do universo, que destroem tudo aquilo em que tocam, estejam agora a sofrer uma cilada de outro parasita. Quem me dera poder dizer isto sem me incluir. Mas também mereço.

Cercados pelo medo, entregamo-nos livremente às mãos dos nossos governos. Como a cria que procura a asa da mãe. Incondicionalmente. Como a vítima de violência doméstica, que só conhece aquilo. Síndrome de Estocolmo. Um gigantesco e filho da puta Síndrome de Estocolmo.


Não faltam apelos ao bom senso, que hoje em dia é apenas ficar em casa.

Tudo parece o cenário de uma hecatombe plena de sobreviventes. De máscara e luvas, impedidos de ter contacto com o mundo.

Se Deus existir - qualquer um deles - deve estar a rir-se a bandeiras despregadas. Se ainda estiver por aí, a ver. Se não tiver mudado de canal ou mandado foder isto tudo.

Se Deus não existir, bem, para quem nos vamos virar em desespero?


Nada foi destruído, tudo foi abandonado. E agora já não nos podemos abandonar uns aos outros, como sempre fizemos.

Tenho terreno em volta de casa. Senão, enlouquecia. 2 dias chegavam. Esqueçam o vírus, isso era o menos.

Provavelmente dava uma de gringo: comprava uma caçadeira. Semi-automática não, falta-lhe charme. Serrava-lhe os canos. Apontar e disparar. Recarregar e repetir.


Como isto é uma faixa de campo, não se nota grande diferença em relação a antes. Poucos passavam por aqui e isso não mudou. Talvez alguns carros a menos na estrada. Nunca ligaram ao campo, desde que os alimentos chegassem aos supermercados. É giro de ver e tal, mas a cidade é que é.

Aqui, o isolamento já tinha chegado por dentro, de mansinho. Instalou-se confortavelmente e sem cerimónias. Nada de novo, portanto.

Agora, está à vista de todas as pessoas.

Dancemos ao som da sua música, porque não há mais nada que se possa fazer.

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