Crónicas de um vírus - Dia 12 - Roleta Russa

Atualizado: Mar 9


Para a maioria de nós, a nova era será um outro D.C.. Não depois de Cristo. Nem antes. Cristo perdeu esta batalha. Há mais máscaras do que crucifixos. Mais gel desinfectante do que vinho. Mais cotovelos em união do que almas. Mais bocas cheias de hóstias do que com Pai-Nosso e Avé Maria. O Monte das Oliveiras está deserto. A quarentena não serão apenas 40 dias. Depois de Cristo, o vírus. E depois do vírus? O deserto?


Apesar de tudo, parece haver bastante gente a alimentar a ilusão de que escaparão ao vírus. Isso acontecerá. Estamos todos agrilhoados. É meramente uma questão logística, para gerir recursos de saúde. O que falta à maioria, é mais higiene cerebral, não física. É por isso que os vírus mentais se propagam com tanta eficácia.

Novamente, estamos nas mãos de um CEO puramente orientado para o lucro. Mas este em particular não foi nomeado por um painel de accionistas. Foi eleito. Por nós, accionistas inconscientes. E só existem duas razões para um CEO se preocupar com a saúde:

1) Se for a própria

2) Se isso se reflectir nos lucros


Agora que estamos ocupados com Análise e Estatística Epidemiológica I, é a altura ideal para negociatas debaixo da mesa, à maneira de um Rothschild. Ao bom e velho estilo de Ford, Taylor e Friedman, predando a miséria alheia. Linha de montagem, condenação às galés. Capitalismo 101.

- Pimenta no cu dos outros é refresco para mim – constará na sinopse do próximo volume de “A arte da guerra aplicada à pandemia” – capítulo 1: Crise é grande oportunidade.


Primeira lição prática: Dividir para reinar.

Qualquer indignação que pudéssemos sentir em relação a todas as manigâncias dos nossos pretensos líderes, encontra-se dirigida aos nossos pares. Como sempre esteve, salvo a ocasional conversa de café ou de internet. Tolerância para os inimigos, atiradores-furtivos para os aliados. Sabotagem interna, levada a cabo pelos nossos melhores agentes. Uma campanha de desinformação genial e diabólica. Maquiavel em modo Pop-Art.

Apenas o foco mudou. Se antes os dedos se apontavam, unidos, na direcção de quem conduzia demasiado depressa ou não trabalhava tanto como devia no escritório, agora é porque não passam tempo suficiente em casa, não saem pelas razões certas ou têm a audácia de expressar sentimentos. Uma das verdades imutáveis desta espécie é que são sempre os outros que estão errados. Seja qual for a situação. O inferno são os outros, o paraíso somos nós.

Continuamos a dividir as nossas forças de resistência. Os que vivem o vírus como uma ameaça séria e os que o vivem como uma tolice. As ovelhas e os negacionistas. Nenhum dos lados tenta compreender o outro. Enquanto isso, os generais comem caviar e bebem champanhe nos seus gabinetes.

- Mais uma vitória para as nossas tropas – cantam de galo, enquanto uma gota do líquido borbulhante escorre do seu queixo seboso em direcção aos planos de conquista que se encontram em cima da secretária de mogno.


Se levarmos a Bíblia à letra, como muitos parecem fazer, Deus enviou sete pragas antes da dizimação final. Não surgiram ainda as mortes dos primogénitos, mas bem recentemente houve uma praga de gafanhotos. Apenas não foi considerada porque surgiu num país africano cujo nome ninguém se interessou em saber.

1 europeu > 100 africanos. 1 branco > 1000 pretos. Está na matéria de Análise e Estatística Epidemiológica I. Estudem bem a lição.


Independentemente de tudo o resto, as minhas acelgas e a salsa progridem alegremente na horta. Ameaçam já espigar ante o crescente calor que se faz sentir. Já as ruas, continuam desertas, como se este mundo tivesse sido apressadamente trocado por um melhor. Se merecêssemos um melhor. Se o soubéssemos sequer apreciar. Como se apenas tivesse havido oportunidade naquele momento. Deixar tudo para trás, tornando a existência fantasmagórica. Erguendo um silêncio tão avassalador, que a natureza tomou a primazia. Pássaros cantando sem interferência ou interrupção, de tal forma que é possível distinguir o canto de cada um, individualmente. A sua melodia sobrepõe-se ao zumbido incessante das notícias à escala mundial.

Mesmo com uma primavera tímida, centenas de pessoas marimbaram-se na obrigatoriedade de permanecer em casa e rumaram para as praias. Mesmo não havendo temperaturas convidativas. Mesmo que o sol não seja o suficiente para dourar a pele. Talvez seja a alma que está gelada e o que procuram é um aquecimento interior.


Daqui a 4 dias, é o aniversário de Ofélia.

- Querida Ofélia, o que tenho eu para te dar, que não este mundo todo fodido?

Ofélia não compreende porque é que os parques estão fechados, as escolas estão fechadas e as lojas de brinquedos estão fechadas. Porque não podemos ir andar de bicicleta para a marina, onde o piso é liso e deslizante. Porque não podemos ir para o skate parque onde as rampas são convidativas ou para a praia onde o sol brilha mais forte. Não compreende porque não há com quem brincar. Não lho consigo explicar. Não me atrevo a fazê-lo. Nem sei por onde começar.

- Está tudo de férias – digo, em jeito de conclusão. Ou de desculpa. Deus ex machina.


Por vezes, diz estar farta de ficar em casa. Levo-a então, de bicicleta a casa da avó. Um crime de lesa-majestade dos dias que correm. Atirem o criminoso para os calabouços, encerrem-no na masmorra e deitem fora a chave. Emparedamento seguido de defenestração. Cavalete para este pai demente.

Uma traição imperdoável à Nação do Vírus, levar uma criança a casa da avó. Poderá matá-la? Não sei dizer. Mas não é minha, a escolha. Não é minha, a vida. Para já, vivemos. Até quando, não sabemos. Incerteza essa, que sempre existiu, não obstante a delirante amnésia viral de grupo.

O isolamento e o medo são armas de destruição massivas bastante cirúrgicas e eficazes. Opto por não as carregar. Não retiro a segurança. Mantenho o cão no sítio. Tudo é uma roleta russa. Isto não é diferente. Vamos apertando o gatilho todos os dias e temos sorte. Rimo-nos e cumprimentamo-nos, mas um dia a bala sairá direitinha ao nosso crânio. Se tivermos sorte, será uma morte limpa. Despedaçá-lo-á. Lascas de osso espalhar-se-ão pelo chão, algumas alojadas na parede. Na parede também, os miolos a escorrer. Se tivermos azar, sobrevivemos. Mas nada voltará a ser o mesmo. Depende de onde a bala passar. Pode ser na garganta, pode passar ao lado de alguma zona vital. Podemos ficar incapacitados o resto da vida. Um vegetal, ligado a uma máquina.

Isto não é diferente.


A minha mãe já referiu várias vezes que as minhas escapadinhas não estão de acordo com as normas que o governo instituiu.

- A minha própria existência não está de acordo com as normas de governo algum – respondo, peremptório. E feliz.

Ela desiste. Eu também. Há discussões que os argumentos não resolvem. E uma mãe é uma mãe. Um estatuto mais importante do que a razão. Do que a liberdade. Do que um vírus.

Se o exercício físico é uma excepção, a sanidade mental também deveria ser. Se fazer dinheiro é uma excepção, porque não fazer amor?

Porque estes cabrões, só sabem foder-nos. Não sabem amar-nos.

Usam-nos para satisfazer o ego, esvaziar os testículos e passar ao próximo. Deixam-nos abandonados, com as cuecas rasgadas, pelos joelhos. A maquilhagem borrada e a sangrar das partes. Desejando que nunca mais nos olhem. Que nunca mais nos toquem. Que nos esqueçam. Até à próxima.

E nós parecemos gostar cada vez mais disso.

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