Crónicas de um vírus - Dia 11 / 21.03.2020: Panem et circenses

Atualizado: Mar 9


A diferença entre domingo e o resto dos dias, esbateu-se. Hoje é domingo mas é quarta-feira ou terça-feira ou outro dia qualquer. Não faz diferença. Não há aglomerados nos centros comerciais, nos parques, nos jantares semanais, nas igrejas ou no estádios.

A gravidade do vírus só ficou clara quando deixou de haver futebol. É preciso um cataclismo para que a bola pare de rolar. Nem mortes, nem espancamentos, nem prisões, nem revoluções. Nada consegue que o esférico deixe de girar. O vírus conseguiu. 3 pontos para ele, todos os outros perdem por falta de comparência. Livre directo, penalti, cartão vermelho, invasão de campo. Esfriou a paixão das claques. Acabaram-se as cenas de pancadaria por causa de cores, ao estilo dos gangs de L.A.: Bloods contra Crips contra Bloods. Verdes contra vermelhos contra azuis contra verdes. O futebol permite que as pessoas suportem muito. Pão e circo, à boa maneira romana. Troca-se o sangue pelo suor, os gladiadores pelos jogadores, os leões pelos milhões e é a mesma coisa.

Sem essa rota de fuga, sem a possibilidade de viver vicariamente, o fino verniz que cobre a grossa camada de merda que é a nossa sociedade, estala. Com pompa e circunstância.


Mais um telegrama do planeta que insistimos em ignorar. Que funciona apesar de nós, não devido a nós. E que operaria melhor se não estivéssemos cá a atrapalhar.

Devido à ausência dos barcos, as águas de Veneza estão translúcidas. Os peixes e os patos voltaram. A poluição das fábricas e dos aviões, diminuiu drasticamente. Tudo, em menos de um mês. Bastou deixarmos de ser nós. Sermos outra coisa qualquer. Ratos assustados na toca, cachorros mijados de medo. Qualquer outra coisa. Que outros milagres nos aguardam, se permanecermos assim 3 ou 4 meses?

Para já, vivemos de forma mutilada de tudo o que considerávamos importante e que afinal não é. Obviamente que não é. Estamos vivos, mal ou bem. O que sabemos nós sobre o que é importante, excepto o que nos dizem. Usem máscara, ganhem dinheiro, constituam família, trabalhem, acima de tudo, comprem. As ordens são para cumprir. Os infractores serão severamente castigados. Apresentem-se para a contagem matinal. Façam as camas, deem lustro às botas. Agradeçam ter um emprego. Viver em democracia. Fiquem longe uns dos outros, confiem nos governos.


Bendito terreno à volta de casa. Com ou sem vírus, fechado num apartamento enlouquecia em 48 horas. É o que acontece quando visito os meus pais na casa onde cresci. Se estivesse fechado num apartamento 24 horas por dia, fosse qual fosse o vírus que andasse à solta, essa seria a menor das minhas preocupações. Só uma caixa de cartuchos e uma caçadeira de canos serrados para resolver isso.

Os animais é que sabem. Para eles, tudo igual. Os cães continuam a abanar as suas caudas, os melros continuam a forragear, as abelhas a polinizar e as árvores a crescer. A natureza está-se ainda mais nas tintas para nós, do que nós para ela. Aqui, isso é mais claro que nunca. A marcha imparável e cruel do universo cilindra todo o poder que considerávamos ter.

- Se houvesse um Apocalipse, aqui não iriamos notar – costumava dizer muitas vezes à Patroa.

A verdade é que não se nota grande diferença. Que as cidades caiam em ruínas, que as empresas colapsem, que as instituições impludam. Nada disso faz diferença. E se fizer, é para melhor.


Nunca acreditei que, enquanto espécie, aprendêssemos de outra forma. Só à bruta. Amor duro. Pai tirano. Agora, tenho dúvidas que isto seja o suficiente. Só um vírus? Tragam as bombas nucleares, os desabamentos de terra, o dilúvio, as pragas de gafanhotos, a guerra mundial, os extraterrestres, a seca e o gelo. Venham com tudo e mesmo assim, é capaz de não chegar.

Só isto não. Um vírus que mata uns, deixa outros indiferentes e torna os jornalistas mais preguiçosos ainda e os políticos ainda mais corruptos, não é o suficiente. Não o levamos a sério. Um vírus sim, mas um que destrua os computadores, os telefones e a tecnologia toda. Que destrua o nosso ego desmedido e ridículo. Que nos tire as manias todas. Devolver-nos à barbárie de onde, na verdade, nunca saímos.

Esta vida torna-se surreal. Difícil distinguir o verdadeiro do imaginário, quando os papéis parecem ter-se invertido. Acabei de ouvir um sino a badalar e não existe nenhuma igreja nas redondezas. E nem sequer há missa nos dias que correm. Estará o Deus católico a querer comunicar comigo? Ou é isto mais um sintoma do vírus? Até os arautos de Cristo tiveram mais medo de adoecer do que fé em Deus e fecharam as igrejas mais depressa do que Lázaro se ergueu dos mortos ou se transforma água em vinho.

Sem futebol nem missa, estalará uma guerra civil em muitos lares. Se cancelarem as novelas, haverá um golpe de estado.

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