Crónicas de um vírus - Dia 10 / 20.03.2020: Duelo ao pôr-do-sol

Atualizado: Mar 9


Acordei no escuro do quarto, ainda de madrugada. Decidi ficar mais uns minutos, saboreando o facto de tudo parecer como dantes. Nas trevas não há baile de máscaras nem fantasia de pandemia. Nada de paranoia colectiva. Longe da cartilha dos sintomas, do homicídio premeditado dos assintomáticos. Boas notícias: ainda vivia. Respirava normalmente, mas havia sintomas.

- Dói-me a garganta. Será que o vírus me apanhou finalmente? – questiono em voz alta, no silêncio da casa ainda adormecida. Decido ignorar a histeria massificada e faço o que sempre fiz nesta situação: chá de manhã, medronho de tarde.


Ainda me levanto diariamente com sentimentos contraditórios, um misto entre alegria de viver e receio de que isso mude. Afinal apanharam-me. Sucumbi. Ao medo. Letal contágio fabricado nas ecrãs brilhantes do futuro.

Lembro-me então que, jamais algum humano neste planeta teve controlo sobre coisa alguma. Mas apegamo-nos a essa ilusão, com todas as nossas forças. Agora estilhaçou-se, ficou em cacos às mãos da ameaça invisível. Sempre existiu uma constante e permanente ameaça às nossas vidas balofas de ocidentais brancos privilegiados. Primeiro os nazis, depois os comunistas. A seguir os árabes e agora o vírus. Sem mal, não acreditamos no bem. Sem Diabo, Deus ficaria a coçar a micose. Seria uma espécie de fantasia de funcionário público.

- Protege-nos, oh grande pai, no céu, no gabinete, no estádio ou onde estiveres – parecemos dizer em uníssono da cova esculpida pelo rabo nos nossos sofás manufacturados por mãos que sabem realmente o que é viver o quotidiano em risco. Uma temporada numa sweatshop chinesa punha-nos a coisa em perspectiva.


Assim, é o descontrole absoluto. Mesmo para aqueles que têm o infortúnio de acreditar nas autoridades.

- Não questionem a autoridade. Eles não sabem nada. – devia tatuar isto na testa.

As autoridades estão ainda mais desorientados do que nós. Sabem inventar leis idiotas, mas quando a coisa aperta, parecem baratas tontas. Sempre foi assim, agora não é diferente. Defender os interesses da população, até isso colidir com os seus. Proteger e servir, mas a quem?

Obviamente convém que alguns resistam e fiquem em condições de trabalhar. Caso contrário, o seu estilo de vida não poderá ser o mesmo. Quanto mais não seja por questões de ego. Como pode alguém ser superior, sem outro por baixo? Um esquema de pirâmide, à escala global.

Mas é só. Quem diz autoridade, diz religião. Particularmente agora, em tempo de necessidade e desespero. A maioria das pessoas procura ainda menos responsabilidade pelo que acontece na vida. À frente à janela a ver a vista, mas é no banco do passageiro, outro que conduza. Deem-lhes um mártir, não lhes peçam o martírio. O céu na terra depois, primeiro um bocadinho de terra que seja seu. Enquanto isso, o governo culpa os cidadãos, os cidadãos culpam-se uns aos outros, o mundo está-se nas tintas e vai fazendo o que tem de fazer.


Esta é a altura certa para fazer vingar os nossos desejos: o zénite do medo. Não é o momento de bater em retirada. Já tivemos o suficiente disso e foi o que foi. Que tudo corra mal, mas à nossa maneira. Basta de líderes anafados com botões de camisa a querem escapar das casas. Com gravatas a sufocar a papada. Com barrigas em crescendo a cada jantar de negócios pago por quem tem de comprar o seu. Alcatrão e penas, se estivéssemos no oeste selvagem. E na verdade estamos. Este ocidente é ainda mais selvagem do que o original. Não é a lei da bala, mas é a lei do vil metal. E esta cidade não é grande o suficiente para nós os dois. Um duelo ao por do sol resolve isto. Chamem o cangalheiro, tragam o padre, montem a forca. Até se ouvir apenas o vento levando o som das esporas à distância. Até se ver apenas um chapéu com um buraco de bala e os arbustos secos a ser soprados para longe. Até todo o mundo se tornar numa cidade fantasma. Abandonada.


Sou de uma geração que viveu à sombra do que os pais conseguiram, mas agora acabou. Fomos perdendo, perdendo, perdendo e não resta quase nada. Já não há sombra. É hora de pedir mais. De exigir mais, em vez de procurar o colo do pai e a mama da mãe. A mama acabou. É altura de por os dentes a trabalhar e de matigar sólidos. Rasgar carne, triturar ossos.

Provavelmente, eu é que sou um romântico incurável. A grave doença do niilismo positivo.

- Porque não podes simplesmente aproveitar o que tens? – uma pergunta que me é feita com regularidade.

- Porque não consigo. Não quando vejo tantas coisas a correr mal para tantas pessoas.

Não sou um santo, mas também não sou um CEO. Quero ver justiça. Se não puder ser dos homens, contento-me com a do cosmos. E ela já aí está.

Penso tudo isto, antes sequer de ir à casa de banho. Depois dessa tarefa e de lavar a cara na tentativa de fazer tudo isto desaparecer, sigo para o terreno e confirmo se está tudo bem. Aí, o arco-íris matinal recebe-me entalado entre o sol madrugador e a nuvem negra que se aproxima. Antes das primeiras pingas caírem, arranco umas quantas ervas daninhas só por descargo de consciência. Atiro-as para os patos e para as galinhas. Para além deles, não se vê vivalma. Talvez o vírus tenha finalmente erradicado a humanidade. Faz sentido eu ter sobrevivido, por restar tão pouco de humano em mim. Nem um carro se ouve. Nenhum dos cães ladra. Nem os meus, nem os do terreno do lado.

Com a morte no encalço, sinto-me mais vivo. Reclamando o que é meu, com urgência.

Porra, não há uma maneira mais fácil? Droga, amor, guerra? Qualquer coisa, menos este flirt com o abismo. Porque o abismo não para de olhar para mim.

Adivinha-se mais um dia estranho.

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