Crónicas de um vírus - Dia 6 / 16.03.2020: Bem-vindo ao inferno






Assim que acordei, confirmei se estava vivo. Parece estúpido, mas nunca morri antes. Não sei se um morto se apercebe de que morreu, mas quero acreditar que um vivo percebe se está vivo. Embora seja cada vez mais difícil distinguir. Portanto, apalpei umas coisas, mexi noutras. Esfreguei os olhos, verifiquei o batimento cardíaco e a respiração. De acordo com as últimas notícias, ainda vivia. Sobrevivia.

A sobrevivência tornou-se o bem mais valioso de todos. Não ter uma casa, um carro ou uma carreira. Não ser empreendedor ou CEO. Julgávamos que eramos tão evoluídos por enviar uns quantos americanos para o espaço, mas nem sabemos lidar com um acontecimento tão corriqueiro como a morte. Algo que nos rodeia constantemente.

Ao ver as notícias, apercebemo-nos disso. Também percebemos como é má ideia estar cercados de cadáveres o tempo todo. Fazer coleccionismo visual de morgues, valas comuns, macas, ambulâncias e aparelhos respiratórios. Uma aterrorizante emboscada para o subconsciente.

Alimentamos o jornalista do Correio da Manhã e o cangalheiro que há em cada um de nós. A síndrome do voyeurismo. E adubamos o stress com números e estatísticas. O papão debaixo da cama, que não nos deixa pregar olho. E nem podemos chamar a mãe ou o pai, têm de ficar longe. Apenas sobra um longo grito de terror a cortar a noite.


Mais valia desligar o aparelho. Foi o que fiz, seguindo para a casa de banho, onde vi a previsão para o surf. Não era boa, mas se fosse não tenho a certeza do que faria. Parece que o surf agora é um crime. Há muitas coisas que hoje em dia são crime e há um mês eram normais. Outras que já foram um crime, agora parecem acontecimentos normais.


Tinha de falar com alguém sobre tudo isto, por isso liguei ao Moisés.

O Moisés é um gajo com que se pode contar. Yuppie por fora, alma livre por dentro. O yang para o meu yin. Trabalha para um banco, mas não é feito de dinheiro. É um verdadeiro bon vivant à antiga que gosta de comer e beber. Como qualquer português que se preze. Alguém com quem se consegue falar, mesmo que o tema seja fracturante ou uma questão de vida ou de merda.

Na sua perspectiva, o problema de fazer surf (ou outro desporto) seria partir um pé, um braço ou a cabeça.

- És maluco? Olha se abres a cabeça com uma quilha, como da outra vez? – sugeriu Moisés.

- Mas da segunda vez que isso aconteceu, fiquei 3 horas a segurar a carne separada pelo corte, até colar. E resultou. Além disso, foi grátis. Sem esperas. – respondi.

- Não tenho vontade de fazer grande coisa. Nem moral. – afirmou ele.

- Bom, eu também não. Mas repara, ainda ontem, quando colocava uns postes para vedação aqui no terreno, acertei com a marreta no dedo e não sei se não o parti. Em casa ou fora, o risco não é substancialmente diferente. – insisti eu, numa última e desesperada tentativa de validar o que queria fazer.


Portanto, seria de evitar qualquer motivo que nos obrigasse a recorrer às urgências.

Se tivesse de ir ao hospital, não seria a chatice de sempre. Seria ainda pior. A boa notícia é que não há filas. A má notícia é que, de uma zaragatoa nariz acima ninguém se livra. E é agradecer a todos os santinhos não ser no cu. O terrível contágio mental.

Não muito diferente de ontem, quando tentei comprar uma prenda de aniversário para a minha filha Ofélia, na loja de brinquedos. Fará quatro anos em breve o que quer dizer que vamos ter de improvisar. Não dá para estar com grandes coisas.

A seguir fui à ervanária comprar miso e foi ainda pior: todos os empregados de luva e máscara como numa gigantesca sala de operações. Anestesia geral pro bono para a totalidade da população. Tão desconcertante que não consegui comprar mais nada. Reduzir o consumo ao essencial para a sobrevivência, mecanismos de compensação em coma.


Como se consegue fazer feliz uma criança de quatro anos quando o aniversário é em pleno fim do mundo? Acendo a vela e deixo que o fogo alastrar mundo fora?

O meu aniversário também será em pleno teatro de guerra. Mas dificilmente poderia ter prenda melhor. Melhor do que um brutal colapso do capitalismo, não consigo imaginar. Se houver inferno, tenho um lugar garantido portanto, posso pensar este tipo de coisas. Se não houver, é provável que criem um para mim.

- Espero, minha querida filha, que o teu sacrifício forçado sirva de alguma coisa. Que seja para te legar um mundo melhor. Porque este, está uma bela porcaria. Mas não me parece. Desculpa lá, linda brilhante e cativante Ofélia, ter-te trazido para esta cloaca. Esta infecta e absurda cloaca.

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