Crónicas de um vírus - Dia 5 / 15.03.2020: Contaminai-vos e multiplicai-vos




Os humanos não são a espécie dominante. São a espécie delirante.

Simplesmente temos ferramentas diferentes das do resto dos animais, ferramentas essas que nos conduziram à arrogância. Tão simples como isto.

Se não compreendermos isso agora, compreenderemos depois. Se houver um depois, claro. Se não for demasiado tarde. Assumindo que “demasiado tarde” não terá ficado lá atrás, perdido nos brilharetes tecnológicos das últimas décadas.

E agora, evitamos o vírus, evitando-nos uns aos outros? Escondemo-nos de nós próprios, deixando de ser amantes, pais e filhos? Vivendo ainda mais isolados, fechados, atormentados nos nossos corpos. Estupidificados. Uma morte de dentro para fora. O deserto absoluto no nosso interior, sem nenhum messias disposto a deambular durante quarenta dias e quarenta noites.


Ao contrário de ontem, hoje o amanhecer foi brilhante. Ventoso mas brilhante. Com uma vaga promessa de chuva sentindo-se no ar.

Provavelmente mais uma das formas do universo nos anunciar isolamento, pois quem não sabe brincar em condições, não pode brincar de todo. Basta de estragar brinquedos, de bater nos outros meninos, de fazer xixi no chão e cocó nas cuecas. Game-over. Ou então sou eu que sou um irremediável fatalista nihilista misantropo que precisa de renovar a fé no mundo. Dizem que vai ficar tudo bem. Arco-íris e unicórnios para todos. Mas chegará a altura em que uns agarram o pote de ouro e outros ficam para aturar o doente.


Quando finalmente estivermos aborrecidos que nem perus de ver a mesma coisa diariamente, as mesmas caras cansadas e as mesmas paisagens, procuraremos novos refúgios.

Restar-nos-á então o escape dos ecrãs. Essa mesura nunca nos falhou. A doce abstracção da tecnologia ao serviço do delírio das massas. Mas até a alienação conhece limites.

Após duas semanas sem novos estímulos, ou a rotina assassina ganha carácter de magia como se fosse uma forma de meditação ou, torna-se uma rude condenação às galés. Ou descobrimos nova vida nas mesmas coisas de sempre às quais nunca dedicámos tempo, ou encontramos inovadoras mortes nas novas e brilhantes coisas.

As brincadeiras dos nossos filhos, a alegria espontânea dos nossos cães, as nuances da luz ao longo do dia tornam-se determinantes. Entrevermo-nos mais seguros mas, assombrados pela constante presença da falsidade. Viver é um risco que não controlamos. Estamos nus e aterrorizados, encadeados pelos faróis que vêm de frente, qual veado no meio da estrada. Fugir ou lutar? Lutar ou fugir? Ficar no mesmo sítio e borrar-nos todos, certamente.

Isto não é novidade. Não pode ser novidade para ninguém. Apenas se terá impossibilitado o fingimento. Fingir que vamos estar cá para sempre. Que o tempo não está contado. Que, se tivermos azar, uma fracção de segundo não é suficiente para nos varrer da face do planeta. Não vamos resistir, por mais tarefas urgentes e trabalhos de responsabilidade que inventemos. Por mais cargos majestosos que ocupemos, por mais fama que conquistemos, por mais inimigos que derrubemos e vilas que saqueemos e pilhemos. A cabrona da morte não quer saber disso para nada e espreita a cada segundo. Uma casca de banana no sítio certo é o suficiente para estilhaçar a ilusão colectiva de grandeza que nos sustenta.

Não somos importantes, somos impotentes.

Agora, mais do que nunca, há que sentir cada despertar como uma bênção.

- Estou vivo? – estou, confirmo, não sem algumas dúvidas. O que significa isso, hoje em dia? Que respiro sem ajuda de máquinas?

É aproveitar enquanto o planeta não se farta verdadeiramente de nós e das nossas borradas.


Imagino nascer uma legião de adoradores do vírus, assim como existem adoradores do sol ou de Cristo. Completamente nus, a lamber as mãos uns dos outros, beijando-se na boca. Fornicando desesperadamente. Tocando em objectos e levando as mãos à boca, de seguida. Sem lavar ou desinfectar.

- Nós, os humanos, somos o verdadeiro vírus. Se temos de perecer, que assim seja. Apenas os escolhidos sobreviverão. Não adianta esconderem-se atrás de máscaras ou fecharem-se em casa. Salve a pandemia, pois ela trará a pestilência, a guerra, a fome e finalmente a morte. Contaminai-vos e multiplicai-vos. Deixai a natureza decidir quais de entre nós são dignos. Enfrentai o vosso destino de cabeça erguida, não como crianças assustadas.

Tentariam contaminar-se propositadamente para ser abençoados, viver a ameaça do presente.

Ainda não estamos aí, mas já há profetas do apocalipse perseguindo pessoas nas ruas a fim de lhes cuspir em cima.

- Estou infectado! – berram, aterrorizando todos os que os escutam. Cospem, inclusivamente, na polícia, quando tentaram detê-los. Finalmente na esquadra, foram agredidos. Suspeito que, com aprovação e alívio geral. O poder que corrompe, como sempre.

Com ou sem vírus, com ou sem medo, continuam a existir festas nas ruas e lojas de moda abertas. Deixaremos cadáveres bonitos.

A morte chega com produção de alta costura e uma bebida na mão.


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