Crónicas de um vírus - Dia 4 / 14.03.2020: Contagem de corpos



Parem de fazer-me perguntas sobre a contagem de corpos. Não conto corpos, não conto mortos. Como se consegue viver, com actualizações constantes sobre a morte?

Se fizessem um relato semelhante sobre o que se passa dentro do nosso corpo, seria algo do género:

- Neste momento morreram 120.000 células dentro de ti e surgiram 130.000.

- Hoje foi o dia em que perdeste mais neurónios.

- Os especialistas preveem que em abril, terás perdido 2 órgãos essenciais.

Não faço ideia do número de mortos, infectados, vítimas ou recuperados. Prefiro não saber. Quando falam comigo sobre esse assunto, a minha resposta é invariavelmente a mesma:

- Não sei e não quero saber. Que se lixe.

- Mas não queres saber o que se passa? – alguém replica.

- Quero, mas eu decido como e quando. Não sou um mero receptáculo para a sociedade do espectáculo.

Desisti de ver as notícias. De ler, de as ouvir. Pior do que lavagem cerebral, são um ataque terrorista mais grave do que qualquer 11 de Setembro. Fazem as coisas soarem ainda pior do que são. Sobretudo num dia como o de hoje, em que o clima parece estar de acordo com o que acontece.


Ao menos, o mundo esvazia-se de nós, ainda que temporariamente. O céu cinzento e húmido parece querer pôr-se de acordo com o momento que se vive. Ameaçador, mas também grandioso. A ausência de vento ainda alimenta mais a noção de que tudo está parado, expectante. Fervilhando sob a superfície.

Na verdade, fomos apenas nós que parámos, sobretudo de fazer merda: a nossa especialidade enquanto espécie.

Parámos de rebentar com esta porra toda. Para aqueles que acreditam num futuro, não será feito do à vontade de agora. Poderá ser preciso apresentar o boletim de vacinas, como se fossemos cães. Talvez seja preciso um atestado de saúde, como se fossemos refugiados. Se calhar, usar um distintivo, como no III Reich.

Nascerão novas classes: os puros e os impuros. Os novos intocáveis, mas agora, não somente na Índia. Ainda assim, assente no mesmo fervor religioso, mesmo que a divindade seja a medicina.

As pessoas que lidam com excrementos tornam-se, elas próprias, excrementícias.


As empresas pequenas, os free-lancers e as profissões liberalizadas - exército desesperado do qual faço parte - irão passar um mau bocado. O que implica que haverá uma legião de consumidores que deixará de o ser. E o capitalismo precisa de consumidores para existir, pelo menos no regime de crescimento desmedido que lhe é típico. Se já está a abanar, porque não dar-lhe um empurrão?

- Aquilo que está a cair, pode ser empurrado. Aquilo que está a rastejar, pode ser esmagado. – cantavam os Death In June em “Hullo Angel”.

Pois esmaguemos e empurremos. Que nos trouxe toda esta loucura, excepto tornar-nos numa espécie obesa, marreca, letárgica, destrutiva e gananciosa de enomaníacos viciados em poder e sexo?


Mais valia rejeitar as merdas do costume. Compra, usa, come, bebe, fuma, mostra.

Fazer hortas e criar um sistema de trocas com outras pessoas. Viver o mais fora do sistema possível, de forma mais simples.

É uma bela ideia, mas somos uma horda de acumuladores de inutilidades, incapaz de superar esse vício.

Não é preciso ser a cigarra, mas também não é preciso ser o raio da formiga. As formigas estão sempre a ser pisadas e depois, para que serviu amealhar tanta coisa?

Está na altura de aprender a gratidão pelo que temos. Pelo que é nosso. Não pelas esmolas que estendem, para nos calar a boca.

- Morder a mão que me alimenta – digo em voz alta, para sentir o sabor das palavras. A ideia.

Sabe bem. Mas não passa disso. Nem sei por onde começar. Precisava de pessoas à minha volta e não resta ninguém. Estamos ainda mais longe do que antes disto. Antes, na melhor das hipóteses ignorávamo-nos. Na pior, odiávamo-nos. Agora, tememo-nos.

Resta viver. Viver na sua forma mais simples, essencial. Quase-animal.

Viver, ao invés de apenas sobreviver e esperar que isto volte a ser o que era antes. Era bom, antes? Gostávamos do mundo como estava? Bem, devíamos tê-lo apreciado mais. Ter-lhe dado mais valor. Mais amor e menos porrada. Menos desprezo. Tudo que tem uma frente, tem um dorso. E aqui está o dorso, danado connosco a sacudir-se que nem um cavalo selvagem demente.


Ao menos que não embirrem comigo por andar por aí de bicicleta quando as movimentações estiverem restringidas. Porque irão estar.

Senão, vou ter de andar a fazer fintas à polícia. Ao menos, não será aborrecido.

É um pensamento egoísta. Somos criaturas egoístas. Não sou melhor, só aspiro a ser. Enquanto isso, vou caindo em todas as armadilhas que impedem isso de acontecer.

- Depois resolvo – não é o que costumamos dizer, quando se procura uma desculpa?

- Agora deixa estar assim, já está. Logo se vê quando chegarmos lá.

O problema é que, já chegámos.

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