Crónicas de um vírus - Dia 29: Portem-se bem


Quanto tempo passou desde o início? Alguém sabe verdadeiramente?

Não cronologicamente, mas em percepção, em quebra do tempo linear no qual acreditamos viver. Parecem décadas, séculos, eras. Vitória esmagadora da imprevisibilidade da vida sobre a ilusão da supremacia humana.

Quando parti o pulso a jogar à bola aos 12 anos, quando cortei uma artéria e jorrei sangue como se fosse uma fonte demoníaca, quando parti a cabeça, todos os momentos em que me arrancaram do coração as certezas que julgava possuir, como se isto não fosse tudo um jogo de poker em que a casa vencesse sempre, a sensação era semelhante. Como se me fugisse o chão sob os pés.


Bastaram alguns segundos para varrer a nossa egomania da face do planeta. Alguns segundos no relógio que equivalem a uma vida. Não a que pensávamos ter, mas a que merecemos. Há que tornar-nos outras pessoas. Se não melhores, pelo menos outras, porque estas são decididamente uma miséria. O normal sempre foi sobrevalorizado. De qualquer forma, desvaneceu-se. Os sinais estão todos aí para quem os quiser ler.

Os profetas da destruição já não são os outros. São os que nos prometiam que tudo ficaria bem, enquanto aumentavam os campos de refugiados, as catástrofes naturais e artificiais, os mortos de fome e a corrupção descarada.

- Vai correr tudo mal – dizem agora – a menos que se portem bem.

Vamos ficar arruinados, esfomeados e desorientados.

Que temos de fazer sacrifícios. Como se não fossemos feitos de sacrifícios.

Tudo por coisa nenhuma.

O que interessa pelo que não interessa.


Ontem ao almoço, o meu bom e velho sogro estava de regresso ao Afonso do costume. Com mais revolta do que medo, ao ver as notícias. Não temendo, mas questionando a realidade, entre copos do vinho que Afonso faz na garagem e o cozido à portuguesa – como se sempre tivesse esperado uma qualquer forma de FIM.

- Isto foi feito em laboratório – afirmava perentoriamente.

- Não sei – respondi.

Mais tarde, quando ouvi o trator do nosso vizinho austríaco, um homem com os seus 60 e tal anos, meti conversa com ele. Deixou bem claro que não acreditava em nada disto. Que achava que nos queriam presos e em casa por outras razões. Fosse a Nova Ordem Mundial, o 5G, os reptilianos ou um teste de poder. Mas havia outra razão que não a que diziam.

Não sei onde está a verdade, nem sequer se ela existe. Sinceramente, não me interessa. É tarde demais para acreditar na verdade. Jesus estava errado, ela não nos vai libertar. Nada nos vai libertar. A verdade de uns é a mentira de outros. O que mata hoje, salva amanhã. Estamos fundamentalmente errados. Miraculosamente enganados. Mas estamos vivos. Por enquanto. Seja lá isso o que for.

Não se pode fugir da morte, apenas se pode tentar negociar os seus termos.

Conspiracionistas ou seguidistas, não importa. Somos feitos do mesmo e cada um de nós fabrica o seu próprio inferno.

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