Crónicas de um vírus - Dia 3 / 13.03.2020: És um homem ou és um rato?

Atualizado: Fev 14


Posso ou não ter estado em contacto com um infectado.

Um homem, cujo pai estava hospitalizado com Covid19, deu-me uma chave para a mão.

Fiquei sem reacção quando se aproximou de mim, imobilizado por flashbacks que eram mistura da espiral de paranoia das notícias com todos os filmes série b que já vi. Indeciso entre fugir a sete pés e forçar-me a agir normalmente. Aceitei a chave como uma sentença de morte. Para os bravos, o pelotão de fuzilamento. Para os ladrões de cavalos, a forca. Para o bispo de Lisboa, a defenestração. Para mim, um vírus mortal das mãos de um turista espanhol.


Desinfectámos tudo com álcool imediatamente, não sem um grande sentido de ridículo. O absurdo em duelo com o medo. Depois de décadas a voltar a meter à boca a comida que cai no chão, os micróbios é que me deviam temer, não o inverso. Mas, em caso de dúvida, compre. E eu comprei. Portanto, desinfectante para cima de tudo.


Por estes dias, dou por mim a vigiar constantemente o meu corpo numa incessante procura por sinais de traição. Tossir é como um acto terrorista. Assoar-me como um crime de ódio. Espirrar como um assalto à mão armada. As verdadeiras células terroristas estão dentro de nós.

Qualquer potencial sintoma que surja, deixa-me na dúvida:

- Estarei condenado?

Condenado a um hospital de campanha. Ou pior.

- Ainda haverá alguém saudável?

- Consegue para-se um vírus?

- Não era melhor despachar esta porra duma vez por todas? Apanhar a coisa e pronto? Assim como quem se voluntaria para a frente de batalha, em vez de perecer gradualmente, combate a combate.

São estas as questões que me assolam. Imagino que sejam semelhantes às que assombram a maioria das pessoas.

Imagino então, um mundo onde a cada minuto surgem actualizações sobre o número de infectados. Sobre o número de óbitos. Apenas isso. A nossa existência reduzida à ansiedade da estatística.

No meio de tudo, os ataques de tosse da Aurora têm-se vindo a multiplicar. Não seria nada fora do comum, não fosse este o contexto em que vivemos. Agora, quando olho para ela, não consigo deixar de ouvir as trompas do apocalipse de cada vez que tosse. Sucumbo a visões de soldados com fatos anti-radiação invadindo a casa a meio da noite. Apontam-nos as lanternas num despertar violento. Arrastam-na sem nenhuma justificação. Apenas deixam a minha impotência e o choro desamparado da Ofélia, sofrendo pela mãe.

No meu misto de fé e hipocondria, não é em deuses que deposito a minha crença. É no sistema imunitário. Mas para haver fé, tem de haver dúvida. E a única certeza que tenho, é que, o melhor caminho para o paraíso é desligar a televisão. Permanentemente.


A maioria das pessoas que conheço parece pensar que esta é uma oportunidade de ouro para abrandar. Para existir de forma mais simples.

Já tivemos outras e simplesmente cagámos no assunto. Desta vez foi só uma carga de ombro, para ver se acordamos de vez. Para a próxima pode ser uma entrada a pés juntos. Com direito a sair de jogo, gravemente lesionados.

O que me deixa apreensivo na velha história de ver o copo meio cheio é que, não vemos a água que está em falta. E às vezes, a sede é incomensurável.

Não me enerva o incessante disparar de estatísticas. Isso é impossível de esquecer, quanto mais não seja por ninguém parar de falar no assunto. O que me preocupa são os governos que, certamente se vão aproveitar para, sob a máscara da preocupação e prevenção, aprovar umas quantas medidas protofascistas. E quando nos apercebermos, já será tarde demais. Nada de novo, portanto. Contem com o neoliberalismo para nos enterrar cada vez mais, ao menos essa é uma constante em que podemos depender.

Provavelmente, quaisquer estragos do vírus serão muito piores devido às medidas para o conter, do que por causa do efeito do vírus em si. No mínimo, adeus fronteiras abertas para todos.

Entretanto, o mundo parece realmente tornar-se mais sereno e pacífico. Certamente porque, a maioria de nós está, como que rato aterrorizado na toca.

O tempo é cada vez menos linear. Cada vez mais caótico e aleatório. A primavera torna-se mais doce e pronunciada, com figos a rebentar nos ramos das árvores mais jovens, pequenas orlas verdes nas pernadas tortas. As árvores de fruto começam também a deixar cair a sua flor.

Às vezes, a urgência carrega um sabor a eternidade, um grito de agora ou nunca. Um é isto ou nada.

Não há como a perspectiva de um futuro pior do que o presente, para saber aproveitar o momento.

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