• Cobramor

Crónica de um vírus - Dia 48: Ao sul


O sul abandonado. Terra castanha, clara, seca. Prenhe de pedras, rente ao grande Atlântico.

É isso o que se consegue ver, sem a cobertura dos turistas.

Sempre gostei do sul. Deste sul: vazio, silencioso, espaçoso e vagaroso. Uma região que se expande muito para além das pessoas que a habitam, no desencontro das casas isoladas, no encontro dos tons terracota com os verdes vivos da vegetação.

As longas estradas vazias serpenteando pelo estômago dos montes terraplanados, umas ao longo do litoral, outras secundárias e misteriosas, cercadas por funcho selvagem e cardos imponentes quase ferindo o céu como uma lâmina.

A quietude surda do inverno prolonga-se quase até ao verão. Até as praias ganham uma nova doce frescura no seu abandono. Onde os barcos não se veem ao longe, onde a ausência dos aviões arrastando as nuvens é quase um esquecimento.

Torna-se onírico, místico, metafísico, supremo. Entregue a si mesmo, à sua sorte, encurralado entre as cordilheiras e o oceano.


Se ao menos aprendêssemos a amar o isolamento em vez de ansiar pelo dinheiro dos turistas. Com uma imensidão de terra por cultivar, há toda uma geração a desesperar pelo som e pela fúria dos hotéis, bares e restaurantes. À espera dos milhares de pequenos-almoços ingleses, bebidas tropicais, estadias de luxo, campos de golfe, pizzas, hamburguers, cerveja barata, escaldões na pele e sexo mal feito e fortuito.

Repetindo tudo de novo. Porque é mais fácil e certo do que a alternativa, seja qual for. Se ainda existir. Mais confortável do que tudo o resto que pertence ao velho mundo que se desfaz com a poeira da seca e o fumo dos cigarros. Como o mundo anterior, dos velhos de calças de fazenda, sapatos de verniz e motas barulhentas como a Famel e a Sachs, de capacete desapertado e caixa de madeira no banco do passageiro.

Desmontam das motas coxeando ligeiramente, com a camisa demasiado aberta, os cabelos demasiados puxados para trás com brilhantina e óculos de aros metalizados ao estilo caçador.

Trocam um mundo moribundo por outro devorador, do qual poucos vestígios restarão para além de garrafas partidas, embalagens rasgadas e preservativos usados deitados para o chão.


Dá-me vontade de chorar ou lutar, cometer uma loucura ou um acto desesperado.

Mas é inútil. Não há como vencer.

Fica tudo como está.