• Cobramor

Crónica de um vírus - Dia 47 - A única coisa que resta


O estado de emergência vai acabar dentro de alguns dias, dizem.

Que vontade de rir. Como se viver no capitalismo não fosse um estado de emergência permanente. É uma emergência atrás das outras.

Daí que, na prática, esse acontecimento não tenha grande significado, pois o que é apelidado de democracia, contém na sua constituição mecanismos para se suspender.

Portanto, querido pai que há décadas dizes que não sei o que é viver em ditadura, se calhar até sei. Não na que tu conheceste, mas noutra, porque, tal como Deus, também a ditadura trabalha por caminhos misteriosos.

Esta ditadura, e não falo apenas do estado de emergência nem do pós-viral, pode não ser feita por homens de fato com corte direito e brilhantina no cabelo. Pode não ser conduzida por um ex-dirigente clerical que afirmava sacrificar tudo pela nação e nada contra a nação, que afirmava impor a vontade do povo ao próprio povo. Agora pode não haver mortos de fome, mas há mortos de desnutrição. Agora há possibilidade de falar, mas é bastante difícil pensar no meio da cacofonia do excesso de informação.

Não, não sei o que é essa ditadura. E também não sei o que é essa liberdade.

Mas sei o que sinto. E o que sinto é que uma ditadura pode ser um camaleão que assume as cores da independência, com tantos inimigos invisíveis e espalhados por todo o lado que se tornam inatingíveis. Restam apenas o seus arautos para atacarmos, mas o problema é que cada um de nós é arauto desse inimigo. Uma ditadura sofisticada, benevolente, que espectaculariza o banal e que dilui a verdade em ecrãs, ao ponto de nos tornarmos inertes.

Ou talvez eu seja apenas mais um idealista desiludido, consigo próprio e com os dias a seguir à revolução, os anos a seguir à revolução, porque não há nada depois da revolução. Talvez não haja verdade nisto, e eu seja um conspiracionista paranóico que acredita que a terra é plana. Mas, tal como Espártaco, quando questionado sobre o fracasso certo da sua revolta, também eu sei que esta revolta está condenada. Mas tenho de continuar nem que seja para provar que é possível. Não resta fazer mais nada.

A alternativa seria aceitar as coisas como são. E que piada teria isso?

Antes morrer sufocado na minha própria loucura do que abraçado pela sanidade vigente.


Felizmente, os animais são mais humanos do que nós e aproveitaram todo o tempo que estivemos fechados em casa para se apoderarem do mundo.

Desde veados até ursos, pumas e elefantes, foram várias as espécies que invadiram as nossas cidades, literalmente ocupando condomínios de luxo e sedes de empresas.

E somos nós a raça superior?

Provavelmente, estavam a rir-se de quem está enjaulado desta vez. Quem é que é o entretenimento, agora, seus babuínos com a mania das grandezas?


Ainda não são 8h, e ao olhar pela janela apercebo-me de que o sol está mais alto e mais quente do que o habitual. O ar sente-se como uma mistura de feno e jovialidade. É essa a sensação a que associo a primavera desde a escola preparatória, quando costumava saltar o gradeamento apelas pelo prazer de quebrar as regras. Então, passávamos horas a deambular pela serra ao lado do recinto, onde nem havia trilhos nem sinal de presença humana. Como se fôssemos exploradores por entre a vegetação árida e os gigantescos amontados de pedras castanhas e cinzentas. Esperávamos algo de grandioso, ansiávamos por algo surpreendente.

Quando regressávamos, era tarde e tínhamos a cara vermelha, do esforço e do calor, e as pernas arranhadas pelos cardos verdes, imponentes e imutáveis como o nosso cerne.

Tal como agora, não havia prazo para os momentos.

A única diferença é que o tempo aprimorou o meu cinismo, enalteceu a minha velhice, afinou a minha ingratidão e ainda me tornou melancólico.

Enterro o boné na cabeça, até ter a certeza de que apenas se consegue ver a barba, e saio pelo portão.