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Crónica de um vírus - Dia 46: Damnatio ad bestias




Ontem, ao sair de bicicleta da loja de ferragens, um homem mascarado numa carrinha fez o que a generalidade dos condutores fazem, quase me atirando para fora da estrada. Como se não fosse nada.

Apesar de já ter superado a fase dos piretes e do vernáculo, estou longe de dar a outra face.

Isto porque desde o início da pandemia, era a quarta vez em que algo assim acontecia. O que significa que, por mais mortal que o vírus e o seu contágio seja, não só não mudou o desprezo que os humanos sentem uns pelos outros, como também não os aterrorizou o suficiente para evitar situações que possam levar a contacto. E nestes casos em particular, gosto de conversar próximo das pessoas. Próximo o suficiente para que os condutores possam ver bem os meus pés de galinha.

Então chamei a mim toda a pedagogia que possuía e aproximei-me da janela do automóvel. Foi o suficiente para aquele ás do volante desandar dali para fora. Quem me dera que fosse sempre assim tão fácil.

Entre ser amado e temido, a segunda hipótese parece-me mais fácil e provável.


Que saudades das primeiras semanas de quarentena, das estradas realmente vazias em que todos desconfiavam uns dos outros. Do mundo ao abandono. Da distância de segurança.

Lembro-me de, nesses primeiros dias, fazer dezenas de quilómetros de bicicleta sem ver um único carro. Nessa altura, parecia que poderia realmente haver esperança. Talvez porque essa seja inversamente proporcional à quantidade de pessoas que nos rodeiam. Parecia que havia possibilidade de aprendermos alguma humildade.

Mas agora, que nos passaram um atestado de bom comportamento, deixámos de fingir e voltámos a ser os mesmos antropocêntricos egoístas do costume.

Ou talvez ainda pior, ainda mais crentes na estúpida lei de Darwin.


Até ser pai pensava frequentemente - não sem sentir algum desejo de que isso acontecesse - que a nossa existência colectiva terminaria abruptamente por um qualquer acto fulminante, fosse um holocausto nuclear, uma catástrofe natural ou uma divindidade cansada da nossa sobranceria. Algo. Alguém. Algures.

Uma espécie de big bang invertido. Um bang, um big. E pronto. Cabum. Crash. Pow. Over and out.

Nessa profecia embrulhada em anseio, diversas professias cristalizar-se-iam num momento só, em que anjos batalhariam com demónios, cidades irromperiam em chamas, gigantescas estruturas colapsariam, terramotos aconteceriam ao mesmo tempo que erupções vulcânicas, maremotos sucedendo-se a colisões com asteroides, enquanto monstros gigantes nos destruiriam ao mesmo tempo que surgiriam fendas na crosta terrestre e o sol se apagaria. E nós, o vírus mais letal de todos, extinguir-nos-íamos ainda e sempre em conflito uns com os outros e com a natureza. A tentar dominar. Agarrados ao ego como se fosse uma bóia de salvação. Afundando-nos no lodo da nossa própria existência.

Afinal, parece que o nosso fim não será assim tão espectacular.

Parece que pereceremos da mesma forma que vivemos, como vítimas da nossa própria imbecilidade. Lenta e inexoravelmente. Pelo menos, até nos apercebermos que é tarde de mais e é impossível adiar. Aí sim, o papel higiénico vai fazer muita falta.