• Cobramor

Crónica de um vírus - Dia 45: Humanidade é um adjectivo

Atualizado: 9 de mar.


Quão belas as florestas quando não há ninguém para fazer tombar uma árvore. A pacífica invasão do musgo através do norte, lentamente, tronco acima. Estranhos cogumelos que brotam do chão numa tripe misteriosa, envoltos na bruma. Correm livres, as lebres, apoderando-se de tudo. Além do restolhar dos seus passos, escutam-se estalidos do alto, provenientes dos ramos mais elevados.

Sob as copas unidas e dançantes, sinto-me protegido. Ouvindo o assobio do vento, ao longo da folhagem, sinto-me protegido.

Caminhando sobre a sepultura de folhas secas, sinto-me protegido.

No casulo desta fria solidão, sinto-me protegido.


Longe do controlo, das restrições, da paranoia capitalista.

Ficaria aqui, eremita, na minha porção de mato, com as mulheres e os animais.

Não ir a local algum.

Nunca gostei mesmo ir a restaurantes, bares ou discotecas.

Os primeiros porque não gosto da comida que servem, os segundos porque não gosto de estar fechado, sobretudo rodeado de gente bêbeda a cuspir imbecilidades ao meu ouvido, enquanto cambaleiam com um copo na mão.

Não, salvo uma mão cheia, a humanidade não me faz muita falta.

Acredito que ela também não sinta a minha falta. Assim ficamos ambos felizes.


Fico aqui a sonhar que, se demorarmos um pouco mais a regressar ao ritmo assassino das cidades, talvez a hera as devore e animais selvagens se apoderem delas.

Obrigando-nos a regressar à origem, ao básico.

Devolver o corpo à natureza e perceber o que significa ter de nos preocuparmos com produzir o próprio alimento em vez de dedicar o dia a trabalhos inúteis, ou mais grave ainda, que tornam o mundo um lugar ainda pior.

Talvez dessa forma, descobríssemos um novo respeito pelo universo em vez de apenas adorar o deus dinheiro.

Ainda sonho com as praias selvagens e desertas. Não com as grandes capitais mundiais mas com a costa dourada a ser massajada pelo mar turquesa. Fecunda em aves de rapina voando picado, que subitamente mudam de direcção, saem das arribas e planam nas alturas sobre estranhas formações rochosas.

As manhãs mágicas frente à imensidão de um lindo e indomável oceano, cuja espuma salta suave sobre as nossas cabeças com o estrondo das ondas a quebrar, parecendo trovões. Uma após outra, plenas de vida e tão para além do nosso controle e influência.

Nesses dias, em que chegava ao oeste de madrugada, sentindo nos ossos o frio oceânico, em que antecipava na base da espinha, com um frémito, o momento em que a água tocaria na minha pele. Primeiro nos pés, depois nas pernas e no tronco. Então, submergia.

Era tão cedo, que ainda ninguém tinha chegado. Nem as gaivotas tinham ainda abandonado a areia.

Olhando para trás, a única coisa que se percebia e que importava, era a esmagadora beleza da imponente falésia por trás da qual, o sol nascia como um poema épico e rapidamente o areal passava de cinzento a amarelo.

Antevia então a grande estrada que atravessava o ventre da montanha, através da qual iria regressar.

Entretanto, uma vida inteira passava. De dias, felizmente perdidos para sempre.