• Cobramor

Crónica de um vírus - Dia 43: Orgulho bronco

Atualizado: 9 de mar.



Fala-se em recomeçar os campeonatos de futebol. Mas os terrenos continuam por cultivar, o que, normalmente não me incomodaria, não fosse a quantidade que existe aqui à volta.

Se por um lado, a beleza selvagem que se apodera da terra é sedutora, por outro é mais um símbolo d’A Queda. À beira do fim, rodeados de malvas, malmequeres e túlipas, plantas invasoras tão altas que nem as galinhas se conseguem ver umas às outras. Devorados pelas daninhas, parece um fim adequado à nossa persistência incomodativa.

Esta é uma queda que não traz conhecimento, como a original. Não exactamente premeditada, mas talvez com a mesma dose de arrependimento.


Num nível completamente diferente de paranoia, decidi desfazer-me do smartphone, dar uma de terrorista e ter apenas um telefone sem internet, nem Bluetooth, nem nada dessas modernices.

Não é por ser paranóico que não andam atrás de mim. Ou de todos. Ou à minha frente.

Estou cansado de ver notícias sobre satélites de espionagem, sobre o 5G e todas essas porcarias que são utilizadas para nos espiolhar. Sejam teorias da conspiração ou não, a privacidade é um luxo nos dias que correm. Nesta altura, cada um de nós deve ter um belo arquivo pessoal em cada uma das multinacionais existentes, gabinetes estatais e sabe-se lá mais onde. O 1984 não era ficção, claramente era um manual.

Porque haveria de os ajudar na tarefa?

- “Eles.”

Há sempre um “eles.”

Já basta medirem a temperatura corporal e o rastreio que fazem, ou dizem fazer, ou querem fazer, a cada cidadão.

Telefones espertos, utilizadores burros.


Felizmente, aqui onde Judas perdeu as botas, é fácil esquecer toda esta demência quando, finalmente me sento, estico os pés e bebo uma cerveja fresca sob o sol quente. Como os meus antepassados fizeram antes de mim. Aguns deles, pelo menos.

Continuar a tradição.

Como se nada se tivesse passado. Como se não houvesse risco de acontecer absolutamente nada.

Não importa o ano em que estamos nem em que mundo vivemos. Um gole para o colapso e outro para a ruína. Embriaguez por embriaguez, o resultado é igual, mesmo que o método não seja.

Sou apenas um homem que arregaça as mangas e descansa, observando a terra. E sendo observado por ela.

Não há aviões sobre a minha cabeça, telemóveis a tocar ou crianças a berrar.

Acaba rápido mas vale ouro. Incenso e mirra.


Sentirei muita falta de toda esta solidão se alguma vez me arrancarem daqui. Ou quando ligarem o maldito mundo novamente.

Longe vai o tempo em que conseguia passar horas fechado num escritório ou em casa. Conseguia? Não. Aguentava. Aguenta e não chora, como dizia o Taveira, esse distinto filósofo libertino.

Já não se aguenta. Deixem-me à solta. Libertem-me. Como um animal. Deixem-me ser bravo, bárbaro, selvagem e rude. Sem maneiras. Mau feitio. Irascível.

Fiquem com as cidades e o progresso. Fiquem com o novo milénio.

Encontrarei satisfação nas pequenas manifestações do universo. Só por estar aqui. Não me distraiam. Não me chamem.

Desfar-me-ei aqui mesmo, como acredito ser o meu fado.