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Crónica de um vírus - Dia 42: A deus, ateus e outros camafeus




Metade das pessoas age como se estivessem em risco de morte súbita e a outra metade como se estivesse de férias.

Quando as metades se unem, dá-se um gigantesco potencial explosivo.

Médicos dizem uma coisa e outros dizem o oposto. Quem os segue, fica ainda mais nervoso. Dizem para confiar na ciência.



Talvez os zombies não andem assim tão longe deste cenário, pois diz-se haver contaminados que se curaram e voltaram a ter o vírus sem sintomas absolutamente nenhuns.

Na prática parece que, a existir anticorpos, são inúteis. Também parece que, esta teoria não passa disso. Também ela inútil. Assim como a maioria de nós. Quando não, prejudiciais. Corpos inúteis, anti-corpos igualmente inúteis.

Talvez seja altura de começar a prestar atenção a outras coisas, já que por defeito nem nós nem os governos nos preocupámos por aí além com pessoas a morrer.

A não ser quando o risco de sermos nós os próximos, se tornou assustador.

Se não, como explicar tantos humanos a morrer por razões tão absurdas como fome e guerra?

Basta voltar ao que fazíamos antes, continuar com as nossas vidas fúteis em rota de colisão com a calamidade e deixar de ligar a tudo isso.

Reabram os cafés e os bares, porque assim que der para beber uns copos, a ansiedade dilui-se. Isso e umas compras e está feito.

Se a OMS tem razão e iremos de facto coabitar com este vírus durante muito tempo, talvez seja altura de voltar a viver?

Já!

Não amanhã. Não para a semana. De imediato.


Não me importo que o estado me pague para ficar em casa, mas paguem qualquer coisa de jeito. Assim não me sinto motivado a ser uma ovelha obediente.

E são ainda mais controladores do que o pior patrão que já tive. E já tive alguns que queriam saber quantas vezes defecava por dia.

- Metafórica ou literalmente? – perguntei. Isto porque, metaforicamente era a toda a hora que eu cagava naquela porcaria de emprego.


Ontem estava um dia de praia clássico e ninguém no areal. Eu sei, porque estive na praia a fazer surf. Um crime de desobediência nos dias que correm. Não desobedeci propositadamente, apenas queria fazer surf. Mas se ainda me dão mais esse bónus, vamos em frente. É algo a que é difícil resistir, a desobediência estatal. Chamem-lhe desporto, se quiserem. Uns têm o seu clube e outros têm isto.

Mesmo sem ninguém, havia lixo espalhado pela areia. E nem sequer era da variedade contemporânea, como máscaras e luvas. Eram maços de tabaco e garrafas de cerveja, espalhados como se fossem pequenos tesouros à espera de serem descobertos.

O que me conduz ao mesmo padrão de pensamento de sempre: não merecemos o planeta que temos. Pelo menos, não colectivamente.

Talvez alguns de nós ainda se safem e consigam ser criaturas minimamente decentes, mas no geral, somos uma espécie desprezível e miserável que provavelmente não merece a salvação. É por isso que nenhum deus quer já saber disto.

Mas está tudo bem, porque no fundo no fundo no fundo, nenhum de nós também quer saber de Deus, a não ser quando a coisa aperta.