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Crónica de um vírus - Dia 41: As vozes na minha cabeça


Já ninguém quer saber de vírus nem de estatísticas nem mortos. Cansámo-nos.

Nem é por insensibilização ou por overdose noticiosa. É porque daqui a 2 semanas volta tudo ao trabalho e nada é mais aterrador, pandémico e contagioso do que saber que se rotina assassina está à espreita.

Bem feitas as contas, antes ficar por casa e dar escapadinhas ilegais do que aturar o idiota do patrão, o imbecil do colega, o borrego do gajo do carro da frente no trânsito, o mentecapto do café ou ter de ver todas as caras que nunca quisemos ver, dia após dia até ao esquecimento ou ao vazio.



Mais paternalistas do que políticos e jornalistas, só chefes. A grande vantagem dos últimos é que se encontram frequentemente na nossa frente, em carne e osso. A gritar, a fazer ameaças, a discursar sobre vestir a camisola e sobre como devíamos estar agradecidos por ter um trabalho.

Nesse momento é de avaliar se espetar um gancho no queixo de um energúmeno desses vale o risco de contágio.

- Vale, claro que vale – dizem todas as vozes na minha cabeça.

Ou se será possível invocar insanidade temporária devido a excesso de quarentena.


Estão a chegar as infindáveis horas enfiados no escritório, embasbacados a olhar para ecrãs, a ouvir as mesmas conversas dos colegas sobre o que fizeram no fim-de-semana e os filhos e os restaurantes e os concertos e as compras e as doenças e o futebol e os filmes. É de pensar se aquilo já será o inferno ou quão pior pode ser a morte.

Desempenhando as mesmas tarefas à espera da reforma ou da doença ou do fim para nos livrarmos daquilo. Com o escritório, surgem as filas de trânsito, os jardins, as praias, os restaurantes e as discotecas cheias ao fim de semana e a rotina de é-segunda-feira-outra-vez. Beber demais ao sábado, comer demais à sexta, ressacar ao domingo com os putos aos berros e comprar merdas de que não precisamos e que só pioraram a nossa vida e a de todos os outros, merdas que até desprezamos e que nos fazem desprezar a nós próprios. Tudo mecanismos de compensação que jamais compensarão seja o que for, porque nem tudo tem um preço e na verdade nada tem preço, porque o dinheiro é só uma fantasia.

Esperamos renascer como uma fénix através de um telemóvel ou de um tablet ou de um carro ou de uma lingerie ou num restraurante ou numas férias, mas fica tudo na mesma, excepto nós, que ficamos um ainda piores. Porque a única coisa que surtia efeito era mandar esta porcaria toda pelos ares de forma a não termos outra hipótese que não começar do 0. Ou do -1 ou -2.


Sonhar com um golpe de estado ou pelo menos com um golpe de rins. Sonhar com uma ilha deserta ou pelo menos uma ilha onde exilar um ou dois sacanas do governo ou duma corporação como o MacDonalds ou a Apple. Ou um bocado de terreno antes de ser preciso para o caixão. Mas se nem isso for possível, deixem ao menos um gajo em paz.

Pelo menos não nos chateiem os cornos, não nos lixem o juízo, não nos fodam a cabeça.


Por isso, duas semaninhas a receber a miséria que o estado dá e que mesmo assim é arrancada a ferros, sempre dá para dar umas voltas com a patroa e os putos, beber umas cervejas, ver uns filmes, girar por aí.

Agora que o fim que todos desejámos tão ardentemente está à vista, nada disso parece assim tão mau. Mesmo que os putos sejam uns ranhosos que passam o tempo aos berros e a peidar-se a patroa dê mais ordens do que faça pedidos. Mesmo assim, considerando a alternativa, isso bem pode ser o paraíso.


Mesmo com risco mortal de vírus e bactérias e micróbios e outras ameaças invisíveis.

Bem vistas as coisas, agora que o medo passou, até nem foi mau de todo. Pelo menos consegue acender-se a televisão e aqueles jornalistas já fecharam a matraca com a mesma história de sempre. E nem um canalha desses foi parar ao hospital. Que tal isso para karma?


Que me perdoem os que ficaram pelo caminho e os que passaram mal entretanto, que me desculpem os médicos e os polícias que se qualificarem como humanos – porque o título não os qualifica automaticamente para tal – os bombeiros, os enfermeiros, os polícias, os estafetas, os caixas dos supermercados, hipermercados, minimercados, frutarias e mercearias, os camionistas, os taxistas, os motoristas dos transportes, o pessoal da limpeza e das obras que andaram a arranhar no meio do apocalipse como bravos do pelotão quando na verdade foram apenas a carne para canhão de quem pôde ficar em casa.

Que me desculpem esses e outros. Que me desculpem todos, menos os políticos, os jornalistas, os accionistas, os banqueiros, os CEOs e outros da mesma laia.

Esses não. Esses que se destruam uns aos outros para nosso gáudio e entretenimento. Para mudar um bocado as coisas, para não sermos sempre os mesmos na arena a lutar contra os leões. Um bocado de sangue, sofrimento, miséria e excrementos alheios, para variar.