• Cobramor

Crónica de um vírus - Dia 41: A transmissão contínua


Ontem, a caminho de comprar vedação para o galinheiro, passei por uns velhotes a beber minis de máscara. Tudo como dantes, apenas com mais tecido facial. Até havia alguns a fumar cigarros de máscara. Ora colocavam a máscara, ora a baixavam, davam uma passa, expeliam o fumo e toca de colocar a máscara de novo.

Não havia nenhum a jogar a bisca ou a ver a bola, mas o dia não deve estar longe. Isto porque o futebol ainda não regressou, mas esperem algum tempo.

Aquele podia facilmente ser o cenário de um anúncio: “embebede-se em segurança, utilize máscara.”

Foi nesse momento que compreendi: tudo será como dantes, mas com uma máscara.

Vamos ver pornografia, injectar heroína, manifestar-nos, embarcar em consumo desenfreado, ver strippers e banhistas, todos mascarados. Uma espécie de delírio iniciático sanitário.

Como se nada tivesse acontecido, ainda a despejar químicos nos rios e mares, a expelir fumo para o céu, a começar novas guerras e a manter a fome, mas em segurança. Com máscara. Apenas mais um percalço no caminho.

- Senhoras e senhores, a transmissão continuará dentro de momentos.

Não só do vírus mas também do que é viral e virulento.


Enquanto isso, nos países mais pobres, as cargas policiais sucedem-se a fim de obrigar as pessoas a regressarem a casa. Controle de multidão à antiga.

Nada de 5G, nada de apps mal paridas. Nada disso. Apenas tropa de choque à boa e velha moda da guerra fria.

O FMI vai esfregando, novamente, as mãos de contente, ao antever a quantidade de nações que se endividarão em consequência das medidas de combate à pandemia.

Mais merda e miséria para quem trabalha, mais um esquema para quem detém os meios de produção. Negócio, como sempre.


Muito bem. Seja. Continuemos. Aqui onde estou, o tempo não é o senhor.

Mesmo que acontecesse Hiroshima, a segunda guerra mundial, o homem ir à lua ou o fim do mundo, estas centenárias figueiras permaneceriam impassíveis. Exactamente da forma que estão.

Banhadas na dourada luz do entardecer. Um entardecer tão lento, que o sol renasce múltiplas vezes por entre a folhagem da amendoeira que se encontra ao lado do galinheiro, animada pelas aves ainda atarefadas, tentando aproveitar os últimos momentos de luz. Bicam o chão e chafurdam na água, em silêncio, perenes. Como sempre fizeram, sem sentido de futuro, sem cativeiro do passado.

Fico a observá-las.