Crónica de um vírus - Dia 40: Deixa arder


Desde que isto começou, atingimos novos picos de estupidez humana. Um verdadeiro milagre, dado o que havia sido conseguido antes.

Desde gajos a fugir da milícia popular com a prancha na mão porque o surf foi declarado actividade non grata, até um homem a cavalo em pleno estacionamento do supermercado, passando por açambarcamento ainda mais imbecil do que o do papel higiénico. O do fermento.

- Malta, dá para fazer fermento em casa, ok? É só deixar apodrecer um bocado de massa de pão.

E deixar apodrecer é com a nossa espécie.


Também já ouvi as teorias mais díspares.

Começando com a dos sintomas do vírus serem derivados da instalação do 5G, passando pela conspiração da vacinação do Bill Gates, até uma sobre estarmos no prelúdio de uma invasão extraterrestre.

Sobre os extraterrestres, tenho pouco a dizer.

- Venham, duvido que consigam rebentar com esta porcaria tão bem e tão rápido como nós.

Sobre o Bill Gates:

- Bem, é um bilionário, portanto é claramente uma manifestação do demónio. Qual é a dúvida?

Sobre o 5G não tenho muito a dizer:

- Precisamos mesmo de internet mais rápida e em todo o lado? Duvido que a produção de pornografia consiga acompanhar esse ritmo.

Por agora, todas as explicações me parecem mais plausíveis do aquela que conta com mais fieis: a da origem do vírus estar num morcego. Parece uma daquelas desculpas idiotas que um vilão de Gotham daria, para virar a população contra o Batman.


Claro que nos podemos fechar em casa. Aliás, até agradeço que a maioria dos humanos se feche em casa, de preferência permanentemente. Não digam é que isto é pelos outros, porque a maioria de nós, se fez algo por outro, ou foi por acidente, ou para causar mal. Caso contrário, 1/3 da humanidade não estaria a morrer de fome e de sede. Nem haveria vítimas de guerra, a torto e a direito.

A humanidade está é borrada de medo, por isso é que se preocuparam em ter tanto papel higiénico. Assim não precisam de sair de casa. Pelo menos para trabalhar. Para o resto, pode ser. Para compras, passear e ir à praia sim.

Parece-me bem, depois de tantos anos a sermos esmifrados pelos patrões, é altura de aproveitar enquanto o capitalismo está em convalescença. Pelo menos, quem consegue. Ou seja, o privilégio branco. Na verdade é verde. Os privilégios são todos verdes, de uma ou de outra forma.

Verde da cor da esperança e da natureza? Não. Da cor do dinheiro.

Vale tudo para nos baldarmos ao trabalho, algo em que, orgulho-me de dizer, somos geniais. Já na escola fomos. Por isso, houve tantos cães a comer tantos trabalhos de casa, tantos filhos passaram mal a noite e até houve alguns familiares que morreram várias vezes.

As outras formas de parar isto não estavam a resultar, portanto, abram o champagne e brindemos à quarentena. Pelo menos quem tiver dinheiro para champagne e sala onde brindar. E fígado em condições.


Temos as mãos, as mentes e as roupas tão sujas de sangue que nem todo o desinfectante do universo conseguiria purificá-las.

Connosco ou sem nós, o sol nascerá diariamente, pelo menos até se extinguir numa supernova. Mesmo em plena era Kali Yuga.

Mas para já, a estrada repousa e as famílias tomam o pequeno-almoço, os cães ainda não ladram e as nuvens ainda não se aperceberam do lusco-fusco.

Quão longe ainda estamos do palácio da sabedoria. Quantos excessos e loucuras ainda teremos de cometer para lá chegar. Se aguentarmos.


Ontem, depois de um copo de vinho frisado ao almoço, fui à praia. Que verde e translúcida estava a água sem aqueles malditos barcos e motas de água.

Até o molhe quebrado e ferrugento parecia fascinante, talvez por se ver despovoado da praia até à linha do horizonte. Nada, excepto um plácido manto verde-esmeralda pronto a acolher todas as coisas. Engrossavam, as nuvens acima.

Se rezasse, seria naquele momento. Para aprendermos algo com tudo isto. Colectivamente, enquanto espécie. Emocionar-me-ia. Mas não rezo.

A alternativa que me ocorre, é deixar arder. Lenta e inexoravelmente. Merecidamente.

Uma espécie de vingança. Sei que também arderei. Não mereço melhor, quanto mais não seja por deixar isto chegar aqui.

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