Crónica de um vírus - Dia 39: Flutua como uma borboleta, pica como uma abelha



O prelúdio da normalidade já se apoderou de todos nós.

Há muitos mais carros nas estradas e há muito mais pessoas por todo o lado, o que é uma pena.

Descontando o facto de todos os domingueiros estarem de luvas e de máscara, é um domingo como outro domingo qualquer. Não fossem as praias e os jardins estarem vazios.


Apesar de tudo, sente-se no ar que algo está prestes a acontecer. Provavelmente não será aquilo que a maioria espera, mas definitivamente algo irá acontecer.

Acredito que, se tudo se mantivesse como até aqui, seria uma questão de tempo até haver motins e escaramuças. Certamente confrontos com a polícia.


Falando em andar à porrada, qual é o protocolo da DGS para isso?

Pergunto porque estou farto dos ases do volante que, apesar de terem a estrada toda para eles, insistem em buzinar para que eu e a minha bicicleta saiamos da frente. De acordo com eles, as bicicletas são para andar no passeio.

Quantas pandemias serão precisas para estes imbecis se curarem?

Se a ignorância fosse um vírus, estes gajos não tinham safa. Bem que deviam ficar fechados em casa para não chatearem ninguém. Podiam passar o dia a jogar simuladores de condução.

Claro que, quando o referido artista que buzinou, parou o carro com a janela aberta, , de cigarro pendurado na boca qual James Dean em modo pimba, para me mandar pedalar no passeio, eu aproximei-me da porta dele. Em jeito de declaração de guerra.

E claro que ele se pôs logo ao fresco, não fosse eu sacar de uma arma biológica de destruição massiva como tosse ou cuspo. Eventualmente ranho ou uma escarreta.

Ou talvez tenha sido o meu ar de bera. Pelo menos prefiro pensar que foi isso e não algo tão geek como gotículas.

Este nem sequer foi o único a fazer algo do género durante a quarentena. E onde anda a polícia quando isso acontece? A ver se há distanciamento dentro dos carros e máscaras dentro dos autocarros.

Assim, enviei um email para a OMS a perguntar se haveria protocolo para enfiar um gancho nas ventas de alguém. Ainda aguardo resposta.


Entretanto, liguei ao meu amigo Martim, que mora num ermo com meia dúzia de habitantes. De acordo com ele, o Trump é só um gajo mal compreendido no meio de toda esta conspiração. Pois. Também eu, só que por azar não sou presidente de nada e nem aceitaria ser presidente de ninguém que me quisesse como presidente.

- Mas tens noção que o gajo é um racista do caralho? – perguntei

- Isso é o que os media passam, é a imagem que querem dar – retorquiu.

É verdade. Isso é verdade. Nem o Bush, que era basicamente uma criança alcoólica de 10 anos, sofreu tantas críticas.

- E então, esta coisa tem origem em laboratório ou quê? – voltei à carga.

- Claro!

- Mas para quê? – insisto.

- Porque os gajos que mandam nisto tudo são os illuminati e os Rothchild e toda essa corja das sociedades secretas de pedófilos adoradores de satanás que bebem sangue de crianças e tomam drogas desenfreadamente.

Isto parece um óptimo argumento para um filme ou eventualmente um excelente conceito para uma banda de black metal.

- Hm...OK – respondo, demasiado confuso e questionando-me onde entram os aliens no meio de tudo isto.

- Os reptilianos dividiram o mundo e a cada 100 anos, o poder tem de passar de oeste para leste, sendo agora a vez da China. Por isso, fazem tudo para o conseguir.


Pode parecer absurdo, mas estas ideias começam a parecer mais credíveis do que a versão dos jornais e das televisões. Pelo menos vê-se que perderam algum tempo com o argumento.


Hoje, que está um calorzinho aconchegador, vamos ver se a horta do apocalipse dá um salto. Embora com o calor tenha chegado a nortada.

A sério, podemos viver mais ou menos assim para sempre? Com o capitalismo em modo lume brando?


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