Crónica de um vírus: Dia 38 - Que se foda


Raios partam isto tudo.

É proibido ir à praia e é proibido beber um copo, mas não é proibido trabalhar.

Pior do que um pesadelo, esta é uma doença mais maligna do que qualquer vírus. Uma doença que, a única coisa que permite, é trabalhar.

Logo trabalhar. Podia ser dormir ou comer. Podia ser ver o sol nascer. Mas não, é trabalhar.

Sem qualquer mecanismo de compensação. Apenas sobrevivência bruta. Tal como antes, mas agora, sem cortinas de fumo.

Só eu e a miséria do quotidiano, devastada pelo deserto do capitalismo.

Depois de superar essa miséria, o que acontece?

A mesma rotina embrutecedora de milhões de carros e aviões a rebentar pelo mundo e fábricas a dar cabo da vida para nos abismarmos com a traição dos nossos pulmões.


Agora que já me domesticaram, prefiro assistir a tudo pela janela, de cerveja na mão.

Com um grande que se foda a formar-se na boca.

Que se foda a modernidade, os telefones, os emails, as redes sociais, a velocidade ultra-sónica, a nanotecnologia e o progresso.

Que se foda o 5G, o WTC, a ONU, a OMS, a DGS, os EUA e a UE.

Sejam os extraterrestres, os illuminati, os judeus, os americanos ou os reptilianos a mandar nisto tudo, o resultado será sempre o mesmo:

Capitalismo selvagem.

Portanto: QUE. SE. FODA.


Deixem-me envelhecer em paz, rodeado de árvores de fruto, da terra de sequeiro e dos entardeceres misteriosos.

Se não conseguem resolver nada, então desapareçam.

Encosto-me à porta da rua, do lado de fora, admirando a selvajaria das árvores, o silêncio monótono da estrada e o chamamento da terra.

Tudo envolto no excitante prenúncio do verão, embalado pelas asas que anunciam a madrugada do solitário melro.

Sento-me no alpendre e espero que o mundo desista antes de mim.

O sol queima-me as têmporas, imóvel e intangível. À mercê da brisa e das nuvens.


Com vírus, sem vírus, com humanos, sem humanos. Tanto faz.

A lei é o universo que a dita, não o homem.

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