Crónica de um vírus - Dia 37: Desculpas para ser uma pessoa de merda


A única saída que há, é a morte.

Para o vírus, obviamente. Mas também para todas as coisas virais e virulentas e sobretudo para o as nossas queixas.

A morte é a cura para todos os males. Mas para já, vou vivendo com tudo o que me incomoda.

Como as pessoas idiotas que se acham mais espertas do que as outras e que têm sempre um motivo para fazer tudo da forma errada. Para cortar as filas, para atirar beatas para o chão, para começar frases com “os pretos”, “os imigrantes”, “as gajas”, para espancar outros por causa de futebol, de religião, de política ou por serem simplesmente mal educados para quem os serve ou arrogantes para quem não partilha os mesmos pontos de vista. Seres humanos, portanto.


Aguento isso. Posso viver dessa forma e desconfio que até tenho uma existência mais satisfeita se me puder queixar dessa gente toda.

Fico com a sensação de que sou melhor do que realmente sou. Nada como rodear-me de miseráveis para me sentir uma pessoa decente.


Só não me convencem é a lavar fruta com álcool ou a tomar banho cada vez que regresso a casa. Se essa é a salvação, então aceito a condenação.

Não é muito diferente quando, após o 11 de setembro, as pessoas se borravam todas mal viam alguém com ar de ser um árabe. A alguns, bastava olharem para mim.

Agora, é o vírus. Inimigo externo, invisível e furtivo como os vietcongs contra os americanos.

Esconde-se sob o nosso cabelo, sob as nossas unhas, na nossa garrafa de vinho, no pacote das nossas bolachas preferidas, nos lábios dos nossos amantes, na face dos nossos filhos.

Após este, quantos outros inimigos se seguirão, também eles agentes secretos prontos a enviar-nos para um hospital de campanha no meio da cidade ou para a vala comum?

Todos aproveitados pela mesma entidade amorfa e indefinível que dá pelo nome de capitalismo.


Esta vida é demasiado curta para fingirmos que dura para sempre. Não dura.

Especialmente quando estamos condenados ao medo e à desinfecção, todos enfiados num enorme preservativo à escala mundial.


A questão não é se quero ver Ofélia crescer. É vê-la crescer num mundo onde há a lembrança constante de que dar a mão aos amigos ou comprar um brinquedo pode ser uma sentença de morte.


Se os deuses estiverem distraídos, posso tentar perceber. Mas se não for isso, então estão a ser verdadeiros sacanas.

Onde estão os anjos da guarda e os santinhos para por esta porcaria toda nos eixos?

Os chakras, os meridianos, as mentes positivas, as rezas e os mártires?

Porque esta coisa do livre arbítrio não parece estar a resultar particularmente bem.


Talvez tenha chegado o momento de um outro tipo de praga. Uma que consigamos compreender melhor. A dos rios a correr sangue pode ser uma boa ideia. Porque a morte dos primogénitos e a praga de gafanhotos já estão gastas.


Quando as comportas da quarentena forem abertas, é que o esgoto jorrará a sério.

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