Crónica de um vírus - Dia 36: Só mais um copo


Descobri o medo.

Não o medo dos vírus. Nem o medo de morrer.

O medo de voltar à mesma coisa de antes.

Ter de pensar em contas, em dinheiro, em aturar humanos. Muito pior do que tudo isto.

Decidir o que fazer a seguir, porque mesmo voltando ao mesmo, nada ficará na mesma. E todas as resoluções que cada um de nós tomou – como se vivêssemos há meses num 31 de dezembro – terão agora de ser postas em prática. Sem um pingo da gasta ilusão de certeza e controlo.

Como se um dia tivéssemos saído de casa para beber um café, e ao regressar nos apercebêssemos de que alguém mexeu nas nossas coisas. A casa inteira de pantanas: a gaveta da roupa interior remexida, os livros atirados para fora da estante, os discos fora das capas e a loiça partida no chão. Ainda é a mesma casa, mas perdemos a sensação de segurança que fazia parte da ideia de lar. Está igual, mas ao mesmo tempo, está irreconhecível. Já não se sente como abrigo.

Mas como não existe mais nenhum, é para lá que temos de voltar. Não há mais para onde ir.


O monólogo sobre o vírus deu agora lugar ao discurso do regresso à normalidade.

Cada um de nós ansioso pelo regresso das intermináveis filas de trânsito, das longas horas de trabalho, da compensação do consumo em massa.

Exactamente as mesmas coisas que nos trouxeram aqui.

Somos o bêbado que só quer mais um copo. O bêbado de camisola interior branca, manchada de vinho, com as cuecas borradas, desdentado, desgrenhado e desesperado.

- Só mais um copo.

Para a viagem, para celebrar, para esquecer.

- Só mais um copo.

Sempre a mesma conversa fatigada. Mesmo após estilhaçar o fígado, arruinar o estômago e destruir os rins.

- Só mais um copo.


Por esta altura, já enterrámos a esperança. Esquecemos tudo o que foi dito sobre um planeta melhor. Depois da ameaça de um vírus, surgiu a ameaça da fome.

A seguir tanto pode ser a ameaça do combustível, da seca, do comunismo, do terrorismo ou doutra coisa qualquer.

E a fome tanto pode ser o combustível para a obediência cega como para a revolta súbita.


Por agora, limito-me a sonhar com golpes de estado, revoluções e almas em fogo enquanto olho pela janela e escuto as grandes bátegas a cair no telhado.

Uma maravilhosa sinfonia perfeita para solidão e isolamento.

Ainda saberemos como agir uns com os outros? E queremos?

Que vida nos espera quando trocarmos o pânico de sair de casa pelo pânico de sair do trabalho? Para quem ainda o tiver.

Uma gota corre apressada pelo vidro abaixo, como uma única lágrima num cenário de devastação. Apenas uma.

Lentamente a chuva abranda e começam a ver-se gaivotas a cruzar os céus, sem pressa, enquanto o vento empurra a água que repousa no cimento, para a terra.

Vêm aí outras preocupações. Impostos, doenças, pobreza e imbecilidade humana.

Ainda vamos ter saudades do vírus.

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