Crónica de um vírus - Dia 35: Rebelde sem pausa


Talvez seja a direcção do vento, agora levante, mas nos últimos dias têm passado alguns aviões. Não percebo se estão descolam ou a aterram, mas ainda foi um número considerável. Chamaram-me a atenção porque só tem havido silêncio. E o seu rugido fez ruir a parede muda da quarentena.

Esse facto torna as coisas ainda mais estranhas: estradas desertas, ruas abandonadas seguidas de aviões a sobrevoarem-nos enquanto as fronteiras estão fechadas.

Se agora surgisse um alarme antiaéreo, já não me surpreenderia. Nem se nos enfiassem a todos num bunker.

Mas não há bunkers. Não para os pobres, para os miseráveis, para os desgraçados, para os deserdados. Haverá para as elites privilegiadas, embora não se perceba a sua utilidade, já que, acontecendo um holocausto, dificilmente conseguiriam sair. Certamente aborrecer-se-iam da sua dieta de caviar com champanhe para o resto dos dias, embora não os esteja a ver a saborear feijão frade enlatado com atum.

Apesar de tudo, reza a lenda que Walt Disney ainda continua em criogenia à espera dum futuro em que possa ser despertado, portanto, talvez afinal o dinheiro compre conhecimento. Mas bom gosto e humanismo não compra de certeza.


Estes acontecimentos surgem como uma forma de autocorreção por parte do planeta. A chuva que não caiu por aqui nos últimos anos, está agora a cair de forma faseada e até o aquecimento global parece ter abrandado ligeiramente. Não o suficiente para a nossa espécie pelintra ter uma segunda oportunidade, note-se. O mais certo é a diminuição drástica da poluição ter permitido isso.

Certamente que, quando este filme terminar, os responsáveis negarão essa relação afirmando que foi apenas uma coincidência. Como tantas outras. Ele há coisas do diabo.


Tal como agora, em que o isolamento serve de panaceia para todos os males. E seria, se colocassem a humanidade toda numa solitária, a pão e água durante uns meses. Não desta forma burguesa, a anestesiar o sofrimento, embotando os sentidos. Ainda assim, deve haver um número considerável de pessoas à beira de um esgotamento. Muitas delas não devem fazer actividade física há meses, nem sequer apanhar sol. Provavelmente alimentam-se de congelados e enlatados, tal e qual como se estivessem num bunker. Em vias de estar desempregados. Em vias de falir, em vias de colapsar. Quem se vai realmente salvar, entre tudo isto? Quem vai realmente ganhar, com tudo isto? Porque há sempre alguém que sai a ganhar.

Nesta altura, custa-me a crer que alguém ainda acredite no conto de fadas de estarmos todos no mesmo barco. Estaremos, mas enquanto uns estão fechados no porão, outros limpam o convés ou estão presos na sala das máquinas, outros são atirados borda-fora. Já os Senhores, banqueteiam-se descontraidamente na mesa do capitão.


Decido ignorar mais uma vez esses pensamentos e aproveitar mais um dia de chuva intercalada com sol, em jeito de primavera. Como quando eu era puto e baldava-me à escola para desfrutar dos lamaçais e dos prédios abandonados com os rufias da escola vestidos com os seus casacos e mochilas cobertos de patches de bandas de heavy metal e punk. Foi aí que tudo começou. A minha desgraça, a minha incapacidade de seguir as normas. Que é às vezes óptima e outras é uma maldição que me impede de decidir da forma certa, pela simples razão de que sou incapaz de alinhar com a corrente. O rebelde sem causa, sem pausa, sem casa, sem calças, sem nada.

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