Crónica de um vírus - Dia 34: O Culto do Vírus


E no dia a seguir a tudo ter terminado, o que acontece?

Alguns agem como se isto fosse uma enorme epifania para a nossa espécie. Que viveremos da terra, consumindo menos e vivendo mais devagar.

Talvez sejam esses os que fundam uma nova religião de adoração ao vírus, aproveitando todas as oportunidades de contágio, infecção e doença para que a humanidade melhore enquanto espécie. Porque é óbvio que só aprendemos pela negativa.

Talvez sejam os próprios a disseminar doenças para tal acontecer. Ou criando alguma nova. Erradicando dessa forma metade da humanidade, para que a outra metade se possa elevar espiritualmente.

Envergariam uma bata branca como os médicos mas recusar-se-iam a lavar as mãos.

Sem as lavar, utilizá-las-iam para comer. Também se recusariam a tomar banho. O sexo seria desprotegido e a comida crua, para terem o máximo de exposição possível a doenças, vírus, bactérias e micróbios.

O Culto do Vírus.


A outra metade da humanidade seria exactamente o oposto, usando máscara e luvas até para o sexo protegido. Totalmente protegido. Evitariam ao máximo estar fora de casa e depois de anos de isolamento a sua pele estaria macilenta, transparente e fantasmagórica.

Evitariam olhar os outros para não terem tentação de se aproximarem. Mesmo quando fosse considerado seguro. Para eles nunca mais haveria segurança, obedeceriam religiosamente às medidas. Para sempre. Mesmo depois de revogadas.

Viveriam ainda mais tempo frente a ecrãs e incentivariam os seus filhos a fazer o mesmo, jamais sabendo o que seria viver sem receio. Existiriam num permanente clima de medo da morte e da doença.

Isolados como se o mundo tivesse acabado e fossem os únicos sobreviventes.


Nem uns nem outros interessam a um velho casmurro, marcado pelo sol e teimoso nos seus ideais, como eu. Ou pelo menos é essa a pessoa em que me tento tornar. Em quem há muito me decidira tornar. Indiferente aos dois lados da barricada. Chega de discussão sobre este tema. Sobre outros temas. As coisas são o que as coisas são, independentemente do que acharmos sobre elas.

Voluntariamente arredado do progresso como se este fosse a origem do mal. Porque provavelmente é.

- Nunca se muda para melhor. Antes ficar na mesma. – diz a sabedoria popular.

Apertando os botões da mesma camisa coçada todos os dias, antes de sair. Mesmo não tendo para onde ir. Com quem falar. Um feliz holocausto.

Não interessa quem tem razão. A vida tem razão e nenhum de nós tem mais razão ou é mais esperto. O fim é a meta. Seja lá como for. Ou quando for. Há um saco preto à espera de cada um de nós, não interessa o salário ou os ideais ou ter ou não razão.

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