Crónica de um vírus - Dia 33: Uma segunda-feira qualquer


Por mim o mundo podia já ter acabado. Para onde isto caminho, talvez fosse melhor.

Desde que este amanhecer resista, dia após dia, o resto pouco importa.

Não controlamos nada. Ninguém controla nada. Não interessa quanto dinheiro tenham, quanta tecnologia exista, quantos impérios se derrubem. Aceitem isso e aí sim, vai ficar tudo bem.


Antes do sol aparecer pela primeira vez neste dia atrás do monte dos ciprestes em frente à nossa casa, todas as coisas parecem preparar-se para o receber: as galinhas já puseram, o nosso querido rafeiro alentejano encosta-se à parede da frente, expectante, os pombos poisam com ar indolente no fio do telefone que já se encontra lotado, as plantas enfrentam o nascente e de súbito, surge um resplandecente disco laranja em todo o seu inegável esplendor. Então, sou feito de rendição e adoração.

Nessa altura, como que se inicia um bailado feito da azáfama das aves, do ladrar dos cães e do vento que faz oscilar as pernadas mais jovens dos abrunheiros reis.


O vírus não veio mudar isso. O mundo moderno não veio mudar isso.

Hoje tudo parece estar na mesma. Até que chega o momento de passarem os primeiros automóveis na estrada para lá do portão. Em vez disso acontecer, pelo menos dias mais bonitos e quentes, nasce uma espécie de parada que ocupa toda a estrada. Nela, há famílias, algumas numerosas, outras nem tanto, e corações solitários vestidos como desportistas. Passam ofegantes numa louca sucessão de caminhadas, corridas ou passeios de bicicleta. Ou então, passeiam os cães. Estas são as únicas excepções previstas a lei para poder sair de casa sem fazer compras.

Ofereçam às pessoas um buraco na lei e elas aproveitá-lo-ão até ao limite, para além de qualquer possibilidade de perigo. No seu âmago, a vida torna-se mais excitante e ao mesmo tempo estão convencidas de que estão a cumprir as regras.

Desde que não vão parar à cadeia, o resto logo se vê ou não fosse este o mundo do tabaco, da comida rápida e dos combustíveis fósseis. Foi esse logo que se vê que nos trouxe aqui, mas não posso deixar de sentir uma ponta de orgulho pelo espírito do desenrasca representar neste caso, uma certa insurreição.

Tal como aquelas pessoas que fazem as compras faseadas ao longo de vários dias para terem mais oportunidades de sair de casa.


O vírus pode ser altamente contagiante e mortal mas o que estamos a fazer para o evitar parece ser ainda mais mortífero. Desmantelar a vida. Peça por peça. Pelo menos para os que estão em baixo.

Tragam os almoços de domingo de volta, aqueles com um ruído ensurdecedor que me torrava a paciência e os ouvidos, com todas as suas conversas paralelas e cruzadas, o tilintar dos copos e dos talheres e o constante arrastar das cadeiras.

Os intermináveis almoços de domingo que se prolongavam até ao jantar, altura em que se instalava a melancolia de segunda-feira.

E as noitadas de sábado quando ninguém conseguia decidir onde ir até já ser tarde demais para ir a qualquer lado. Acabávamos então por ficar exactamente onde estávamos, agindo como se a noite durasse para sempre.

Mas não durou e isto também não vai durar. Depois, chegará uma segunda-feira qualquer e tudo se repetirá.

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