Crónica de um vírus - Dia 31: (A)final (in)feliz


Sem grandes surpresas, o estado de emergência foi prolongado novamente. Ou, como gostava de dizer Salgueiro Maia, “o estado a que isto chegou”.

Mais 15 dias de controle estatal, menos 15 dias de controle estatal, não fazem diferença. Porque duma forma ou de outra, ele está sempre lá.

Já tivemos medo do terrorismo, agora temos medo das estatísticas.

Somos uma raça de medricas, sempre com medo de alguma coisa e a correr para debaixo da saia da mãe.

Também já tememos a guerra nuclear e o fim do mundo mas nunca mexemos o rabo para o evitar. Deixámos a coisa correr, a ver o que dava. Agora não vai ser diferente, é deixar andar. Vamos ver o que dá.

- “Logo se vê” – como costumamos dizer.

O planeta concorda connosco, encolhe os ombros e oferece-nos uma primavera com momentos de particular beleza que, não voltaremos a ter com esta pureza. Não voltaremos a ter oportunidade de estar completamente envolvidos na incessante azáfama das andorinhas sem ruído que perturbe esse espectáculo. Ou no bater de asas dos pombos que adoptaram a linha de telefone em frente à nossa casa como poiso permanente. O crescimento avassalador das papoilas enquanto o meu cão Lemmy descobre amêndoas perdidas sob as árvores, abrindo-as com os dentes e deliciando-se com o fruto, durante horas.


A manhã flutua gloriosa com o sabor de um domingo, prenhe de um ar que invoca a preguiça, envolta num céu gorduroso com nuvens baixas, brancas e fofas, pontualmente dilaceradas por espadas de luz. Espalham-se então mais finas a nascente, como que se alinhando para ver o sol nascer. Tudo em antecipação dum novo dia.

A oeste parece aproximar-se chuva, a cavalo numa pujante massa cinzenta. Enquanto isso, as acelgas engrossam e as abóboras já nasceram, tudo mérito dum ensaio para o apocalipse.

Ontem, depois de Ofélia e a Patroa se deitarem, fui lá para fora com o chá tentando ouvir os ruídos estranhos de que tantos falam e que apenas dizem existir de noite. A maioria das pessoas sugere serem extra-terrestres os causadores dos ruídos, mas não creio que nenhuma raça espacial com um mínimo de inteligência quisesse ter algo a ver connosco. Especialmente neste momento da nossa história. A menos que fosse para nos escravizar ou aniquilar, que é o que estamos mesmo a pedir. Provar do próprio veneno e tal.

Não consegui ouvir nada, excepto um ou outro carro ao longe.


Isto significa que a minha esperança num holocausto em que a humanidade tem uma epifania e se arrepende dos seus modos destrutivos e egoístas, redimindo-se em união plena numa espécie de guerrilha anarquista poética e romântica contra os invasores, não vai acontecer.

Pensei que, ao menos escutasse algo relacionado com a ressonância de Schumann, mas nem isso. Nada. Apenas mais vazio. E nem era vácuo, era só desapontamento materialista da pós-modernidade.

Assim entretive-me a identificar constelações e em busca de OVNIs, cometas ou qualquer outro sinal de que isto terminaria em breve ou, como todos insistem, que iria ficar tudo bem.

Claro que não vai ficar tudo bem. Nunca esteve tudo bem e nunca houve nenhum final feliz. Ninguém vive feliz para sempre, nem mesmo infeliz para sempre. Porque ninguém vive para sempre e muitas vezes nem sequer feliz.

Essa ideia de ficar tudo bem não só é infantilizante e absurda, como também é irritante. Quase tanto como a invariável ordem “Fique em casa”. Que vontade que dá de ir para a rua todo nu com uma garrafa de champanhe a celebrar só porque é proibido e moralmente condenável.

Que diferença faz? De qualquer maneira estamos todos condenados

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