Crónica de um vírus - Dia 30: De médico e de louco


- Quando é que esta porra acaba? – é a pergunta que se forma na boca do mundo.


Parece durar desde sempre e parece que vai durar para sempre.

É difícil perceber a origem do tédio, se da incapacidade dos mecanismos de compensação serem activados através das compras, se da falta de convívio ou das distrações que criámos para preencher tempo de que não dispúnhamos. Tempo que perdíamos em emails, reuniões, filas de trânsito, jantares e compras de última hora.

Será disso ou das quatro paredes que não param de nos fitar e estão a dar connosco em loucos?

Ou talvez seja apenas uma manifestação da loucura humana que sempre existiu e que começa agora a revelar a sua hedionda face. Lenta e inexoravelmente.


A loucura individual a trazer ao de cima o desespero e a solidão que cobríamos de formas que agora não conseguimos. Todas as rugas e verrugas iluminadas no espelho. Todos os sinais estranhos, as falhas de cabelo, os dentes cariados e as marcas na pele. Tudo à luz do dia. Crua e violenta. Imperdoável.

Agora, apenas temos de agradar a nós próprios. Mais ninguém está atento. Ninguém diz que outro cheira mal ou tem mau aspecto. Que a camisa branca tem uma nódoa.

Mais ninguém está presente ou sequer interessado.

Cada um embrulhado no seu manto de loucura pessoal. Os que têm Deus viram-se para ele. Os que não têm procuram o seio do autoridade. Os que enlouqueceram mais, viram-se para si próprios. O vazio interior, desamparado.


Se sobrevivermos, não voltaremos a ver arranha-céus vazios, praias onde as algas se apoderam do areal ou avenidas que nunca nos pareceram tão longas, sob o céu rasgado. Não voltaremos a ver como o mundo seria sem nós. Um ensaio da morte da extinção humana. Não através dum modelo de computador, de um filme ou da imaginação. Mas in loco, em tempo real.

Mais culpa, mais vírus, mais destruição.

Se isto continuar, heras monumentais cobrirão edifícios gigantescos, as maiores capitais do planeta serão cobertas por fezes de pombos e gaivotas, devoradas por ratos; florestas e desertos serão a norma.

Um planeta em modo de vingança, a reverter para o que era antes do aparecimento da nossa espécie, antes de no início ser o verbo, antes do big-bang, antes de tudo antes do nada antes da miséria antes desta merda e de outras.

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