Crónica de um vírus - Dia 28: Presente envenenado


A nossa espécie não sabe viver no presente. Nem que a vida é um presente.

Quando tudo parece uma desgraça, comparamos com o passado.

Quanto tudo corre bem, pensamos na maravilha que vai ser no futuro.

Mas nunca aqui estamos. Não verdadeiramente.

Pois agora, estamos. Irremediavelmente. Porque o futuro não parece oferecer grandes hipóteses Pelo menos a julgar pelas televisões populadas por caixões improvisados e hospitais pré-fabricados. O futuro anuncia já uma segunda quarentena, ainda esta não acabou. Não há futuro. Não ao futuro.

Por mais almoçaradas e saídas com que sonhemos, desta vez olhar para a frente não nos vai safar.

Assim que pusermos um pé fora de casa, mesmo com autorização do governo, as probabilidades são não termos o mesmo emprego, ou pelo menos, o mesmo salário. Nem a mesma vida.

Depois duma tempestade de merda, que tal uma avalanche de bosta?


Não sei quantos foram os mortos ontem, ou se os extraterrestres de cabeça reptiliana foram responsáveis. O que sei é que a contagem de corpos ajuda tanto como fazer um cálculo das horas de vida que me restam, das possibilidades estatísticas de ter um ataque cardíaco, um acidente na estrada ou levar com um raio nos cornos.

Que se foda tudo isso.

Levanto-me de manhã e tenho de cagar na mesma como em todos os outros dias. Bebo chá na mesma, como sempre, encostado à janela do quarto de Ofélia enquanto o sol nasce. Porque não há nada que possa fazer para alterar o rumo da vida. Que é sempre em direcção à morte. Certeiro que nem uma seta. Em cheio no coração da existência.

Enquanto esses momentos existirem, há uma centelha de vida em mim. Enquanto as nuvens lentamente se precipitarem sobre o sol nascente, enquanto os imponentes ciprestes se erguerem no alto da montanha, tudo o resto se dilui.

Mesmo que o isolamento crie mais lutas internas do que é habitual, mesmo que tenha discussões inúteis e a seguir sinta-me miserável. Mesmo que depois das discussões estúpidas queira apenas entregar-me nas asas da negra noite. Aí, lembro-me que estamos em estado de sítio e que há brigadas policiais e um recolher obrigatório.

Fico-me então pelo arrependimento e tenho de viver, mais uma vez, com a porcaria que fiz e o idiota que fui e vivo também novamente, com a porcaria que todos fizemos e os idiotas que somos.

Então, desejo fumar. Esta seria a altura ideal para um cigarro. Na rua, envolto no escuro da noite com a coluna de fumo a subir languidamente, reflectida pela luz amarelada do poste público. Desvanecer no fumo, lento.

Mas não fumo, por isso fico apenas a olhar para o infinito do céu.

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