Crónica de um vírus - Dia 27: Almoços grátis


Não faz diferença se o vírus teve origem humana ou não. Esqueçam isso. O resultado é o mesmo.

O que interessa é a sobrevivência. Mais, interessa a vivência. Aproveitamento humano, há de certeza. Não no país dos brandos costumes, mas noutros, onde os governos declaram legitimidade para sacar duma arma em caso de quebra do recolher obrigatório.

Isto faz com que os maluquinhos das teorias da conspiração já não parecem assim tão maluquinhos. Comprar uma semi-automática e construir um bunker já não parece assim tão radical. Preparar para a luta final entre o bem e o mal. Todos os dias. Pessoalmente, não aprecio enlatados, portanto corro o risco de viver normalmente.


Se me deixassem apenas ter UM almoço descansado, a neura passava. Uma almoçarada daquelas que terminam à hora de jantar. Em que ficamos horas à mesa na conversa, passando das maiores futilidades para as questões mais profundas. Conversa de merda.

Até ficar com o discurso entaramelado. Ao meu lado, alguém se apercebe de que já comeu e bebeu mais do que a sua conta. Mas não importa, porque nos sentimos ligados, duma forma inexplicável e intangível. Sentimo-nos também novos. Como se experimentássemos algo pela primeira vez.

- Vamos dar uma volta para desmoer – sugere alguém.

E lá vamos nós, arrastando os pés, sem destino, por entre o alto matagal que já cresceu até à altura dos nossos peitos. Compondo um leque apaixonante de cores primaveris, onde predominam os verdes das daninhas e os amarelos dos malmequeres, ocasionalmente interrompidos pelos vermelhos das papoilas. Uma deliciosa mistura de cactos, dente-de-leão, malvas e funcho cobrindo o solo rochoso que empresta um ar alucinante à paisagem. Brava, louca e selvagem. Pura, nua e bruta. Como tudo devia ser.

Ao longo do valado semi-arruinado, invadimos alguns terrenos utilizados apenas para cultivo, há muito pedindo para ser lavrados. Eventualmente regressamos, já com as pernas a doer, e a sensação de ter escalado uma montanha. Os corpos moles pedem descanso, depois de semanas e semanas de trabalho e várias horas seguidas de banquete.


Isso é o que faz mais falta. O resto aguenta-se. Que as lojas fechem para sempre, as estradas permaneçam vazias para a eternidade e os aviões e os barcos em terra. Nós aprendemos a safar-nos.

Talvez a viver em bandos ou tribos de novo. Pouco importa. Devolvam-nos à vida crua.

Tornarmo-nos bárbaros. Felizes. Que caia a porra da civilização. Com pompa e circunstância. Depois logo se vê.

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