Crónica de um vírus - Dia 25: No purgatório


Acordo para um planeta vazio e cinzento. Não chove nem faz calor. Não se morre nem se tem amor. Não é carne nem peixe. É um limbo, um purgatório, um interregno. Um intervalo publicitário.

Apesar de estar na sua altura, os pepineiros estão a secar. Plantei-os porque era suposto estar calor, mas não está. Nem nada está como era suposto. Excepto o que é suposto. E conveniente.

Excepto os supermercados, que trabalham porque o nosso governo querido quer assegurar-nos de que não vão faltar alimentos. Caso contrário, não haveria vírus que parasse os mortos-de-fome. Já falta o circo, se também faltar o pão, cabeças vão rolar. Literalmente. E não queremos isso. Queremos ser civilizados. Não queremos ser entregues à barbárie. Mas por vezes, uma a cabeça a rolar pode fazer a diferença entre um e outro. Resta saber qual é qual. E para quem.




Prefiro apostar na autosuficiência. Não basta o bonito mantra actual de comprar o que é nacional. É preciso comprar o mínimo, gastar o mínimo. Prepararmo-nos para o apocaliticismo futuro. Anunciado ou por anunciar. Porque haverá mais. Isto é apenas o começo. Consigo senti-lo. Quando se dá um passo destes, não se volta atrás. Ou à frente. Simplesmente não se volta. Fica-se por aqui pelo resto da vida.

Por isso, fico frustrado com o estado dos pepineiros. Queria soberania alimentar e hídrica. Um bando, um gang, uma tribo. Verdadeiros laços, mas estou só. Menos do que antes, é certo. A quebra forçada dos laços, veio reforçar os laços por opo sição. Encontro semelhanças onde antes apenas via o vazio ou a diferença. Uma espécie de surpreendente empatia que nasce da lama e da discórdia. Um inesperado abraço ou um beijo furtivo. Sinto jorrar amor. Não quero que ninguém morra, que ninguém sofra. Não procuro culpados. Quero que nos redescubramos no pouco espaço que há disponível. Que nos recebamos uns aos outros, receosos e corajosos, desprezadores e desprezados. Puros e impuros.


Por outro lado, as acelgas crescem a olhos vistos. Planta resiliente, gosta de ser mal tratada. Veio ter com a pessoa certa.

Existe tanta terra no meu redor que me sentiria um criminoso se não a aproveitasse. Particularmente agora, com tantas pessoas entaladas entre quatro paredes, a desejar desesperadamente por um cantinho onde respirar. Uma oportunidade de se deitarem sobre o barro vermelho, a areia amarela. Sentir o contacto do chão com a pele, do céu com os olhos. Uma pausa nesta loucura pior de todas, que é a normalidade. Nova ou não.

Diz-se por aí que a quarentena é uma óptima oportunidade para estar com a família. Será, mas estar com a família só faz sentido se houver oportunidades de estar sem ela. Senão, é só mais outro trabalho. Outro beco sem saída. Outro tem de ser.

Às vezes não há mesmo para onde ir se quisermos evitá-los. A menos que seja o roupeiro ou a dispensa. Que seja. É abrir uma lata de cerveja lá dentro. Não dará o mesmo alívio que uma imperial num bar, mas uma cerveja é uma cerveja é uma cerveja. A cerveja no topo do bolo. No topo do mundo. No fundo do poço.


Aqui fora, os figos continuam verdes, as sirenes continuam a tocar ao longe e falta de água também continua. O mundo permanece virulento, decaindo, peça após peça e milhões de pessoas a morrer todos os dias. Porque somos demais, porque somos mortais, porque somos vândalos. Porque é o que tem de ser e não o conseguimos mudar. Por mais foguetões, medicamentos ou filmes que se façam.

Agora, estamos um pouco mais arrependidos e um tanto ou quanto mais assustados do que antes, mas depois da prisão, chega a liberdade condicional. E todos sabemos o que acontece a um reincidente.


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