Crónica de um vírus - Dia 24: Vírus blues


Céu cinzento novamente.

Com o sol, tudo parece mais fácil de suportar. Não sei se é a glândula pituitária, a seratonina ou o raio que os parta a todos. Mas o sol empresta alegria duma forma que o cinzento não consegue. Irradia vida das existências mais significantes, dos insectos, das pedras, das peles. São os únicos que ainda andam por aqui.

A quarentena torna-se assim mais enfadonha. Antes do vírus, um dia cinzento, imóvel e amorfo como este seria ideal para ficar em casa. Despertando nostalgia ao ver a chuva bater nas janelas do escritório, ansiando pelo conforto doméstico. O quente do sofá, o calor do corpo da Patroa, a alegria de Ofélia. Ou acompanhar o movimento dos limpa para-brisa, quando estamos parados no trânsito, desejando chegar finalmente a casa. Atirar a mala para o chão, o casaco para o cabide e deixar a merda toda lá fora.


Tivemos o que desejávamos. Estamos em casa e chove lá fora. Confortáveis e protegidos. Nem sequer nos podemos queixar de que só chove ao fim-de-semana. Porque pouco importa ser fim-de-semana agora. Os dias confundem-se uns com os outros. Não há para onde sair, concertos para ver, copos para beber, bola para ver, museus para visitar ou praias onde ir. Não importa que dia da semana é, ou mesmo em que semana estamos. Nada muda. Tudo o que há para fazer é em casa. Faça chuva ou faça sol. Seja segunda-feira ou domingo. Vida ou morte.


Outra coisa que se extinguiu: Blues de segunda-feira. Os Blues são agora da quarentena. Todos os dias. Sem plantações de algodão nem chicotadas nas costas, Blues do Séc. XXI. Em que as cidades não têm movimento intestino. As estradas deixaram de ser formigueiros atarefados. Os céus não são já cruzados por enxames de aviões. Terminaram as tempestades de néon à beira das vias-rápidas.

Uma sensação de fim. Vertiginosa e arrebatada.

Sem profecias de Nostradamus, sem Evangelho de São João ou dos Maias. Embora tenha existido um monge budista do Séc. XIX que profetizou algo semelhante a isto. Mas era fácil adivinhar que ia dar raia. Eventualmente. Eu conseguia.


Muitos passam o tempo a rezar. Uns pelo fim, outros pela cura. Talvez sejam uma e a mesma coisa. Provavelmente serão os mesmos que passam o tempo a beber. Talvez não o façam necessariamente para esquecer. Bebem em memória de outros tempos, que foram apenas há 2 meses. Acende-se mais um cigarro para acompanhar o vinho e vai-se até à varanda ver se algo mudou. Se há incumpridores por ali, quantos dos que se encontram na rua passeiam o cão e quantos fazem exercício.

Utilizam-se os pretextos mais criativos para estar fora de casa. Desde caiar paredes até podar árvores.

Os pombos enlouquecidos com tanta liberdade, prontos para afogar as cidades num oceano de fezes. Não merecemos melhor que isso. Não merecemos melhor do que afogar-nos num oceano de fezes.

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