Crónica de um vírus - Dia 23: Vales Ouro


Não.

Nada disto pode ser real. É demasiado absurdo. Demasiado estúpido.

Se desligar a televisão, se desligar o rádio, se desligar as Estatísticas, o número de casos, das vítimas, dos contágios, apenas sobra a realidade que me rodeia. Sem máscara, sem análise de especialistas. Sem interpretação, sem filtro. Eu e a minha ilusão pessoal.

Apenas estradas vazias e lojas fechadas. Não muito diferente do que o Sul é em pleno Inverno.


Sonhei com um mundo em que o tempo se diluía nas pequenas coisas. A pressa se perdia. Tudo o que considerávamos determinante, esgotava-se nas insignificâncias. Obrigando-nos a existir nas banalidades que sempre fizéramos à pressa para passar às outras coisas. As Coisas em vez de as coisas.

Lavar a loiça ou apertar um parafuso. Ter uma simples conversa. As interferências despareceram. Resta pouco do que havia.

Não mais mumificar frente ao Aparelho do Mal, emprenhando os olhos com toda a informação. Megalomania, paranoia, desvario, loucura, alucinação, excesso, delírio, ofuscamento. Aceitar o que temos e existir num longo compasso de espera em vez de simplesmente existir. Habituação a novas rotinas pós-apocalípticas de certificações sanitárias e critérios de saúde para mandar uma mija ou apertar uma mão. Uma realidade onde tirar macacos do nariz é um acto de rebeldia. Qual é a política sobre coçar os tomates? Para quando testes de modo a apurar quem sabe lavar as mãos em condições? Adoptar a mesma estratégia para quem perde pontos na carta. Estabelecer infracções e prevaricadores.

- O senhor não lavou a unha do polegar esquerdo convenientemente. Nem o espaço entre os dedos da mão direita. Perde 2 pontos na carta de saúde.


Haja momentos puros como quando a doce luz do entardecer surge atrás dos cabelos de Ofélia, tornando-os melífluos. Quão mais brancos se tornam os seus dentes, quando isso acontece, fundindo-se ainda mais com as nuvens que a sua cabeça, recortada no céu parece elogiar. A sua alma transparece, inunda-a. Poderemos ficar assim para sempre? Eternizados naquela fracção de segundo.

São tantas as vezes em que lhe digo:

- Sabes quanto vales?

- Não, pai.

- Vales ouro.

Nunca é mais verdade do que em alturas como essa.

Mesmo que o mundo esteja de joelhos e a humanidade moribunda, tudo pode ser curado dessa forma. Com o amor de Ofélia.

Ela está além de quarentenas, cordões policiais ou crises económicas.

Pertence aqui, onde os raios solares atravessam as folhas das figueiras e as daninhas crescem até florir, cobrindo tudo de abandono selvagem.

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