Crónica de um vírus - Dia 22: Proteger e cuspir


Começamos a temer mais a penúria do que o vírus. Há quem diga que uns quantos velhos a menos, não seriam problema. Que é uma limpeza. Certamente que o Ministro da Economia, atrás de portas fechadas, concorda. Menos peso na segurança social, nos lares, nos hospitais e no orçamento. Fazer contas às vidas.

Muitos querem regressar ao trabalho, porque estão a ficar sem dinheiro. Sem poupanças, sem salário, de que serve escudarem-se seja do que for? Barrigas vazias alimentam pessoas desobedientes.


Ontem, quando saí, perdi-me. Dei por mim às voltas no meio da floresta, onde todos os acessos estavam fechados. Sem maneira de regressar e temendo um encontro imediato com a lei. Foi assim durante mais de 2 horas. Imaginei diálogos deste género:

- Estou perdido, Sr. Agente.

- Mas não mora aqui?

- Moro sim, mas não conhecia este caminho.

Provavelmente, eu nem estaria na ilegalidade. Talvez na clandestinidade, dada a quantidade de zonas cinzentas do estado de emergência.

Seja como for, por princípio, tento sempre evitar encontros com a polícia. Nunca se sabe como lhes está a correr o dia e é demasiado fácil arranjar um motivo para arrastar alguém para a esquadra, abrir cabeças ou partir uns dentes.

É possível que tenha visto demasiados filmes americanos sobre patrulhas de botas à cowboy e óculos de aviador nas estradas interestaduais a partir farolins aos forasteiros. Mas evitar confrontos com a autoridade é sempre boa política. Passar nos buracos da chuva, entre as malhas da lei. Sempre que vejo um carro da polícia, mudo imediatamente de estrada até desaparecer. Pode parecer paranoia, mas não é paranoia se andarem atrás de ti.

E neste contexto, metade do mundo é polícia da outra metade. Uma nação de xibos. Em cada cidadão um delator. Denunciando terroristas como os criminosos que se sentam no banco do jardim, passeiam na praia ou jogam à bola. Um verdadeiro descanso para os homenzinhos fardados.

Ainda assim, há tradições que se mantém. Como dar arraiais de porrada a imigrantes pelos simples facto de serem imigrantes. Estatuto assumido de propagador de vírus. A espalhar os seus vírus esquisitos no nosso país de brandos costumes.

Nesses casos, parece que as regras do distanciamento não se aplicam. Nem o medo. Os agentes que espancaram o homem de leste não pareciam temer gotículas áreas, nem mesmo salpicos de sangue. Ou talvez tivessem o fato anti-radiação vestido.


Para meu grande gáudio, os velhotes resistem. Teimam em viver à sua maneira, formando filas à porta da tasca enquanto aguardam o medronho, a mini e o café. Fila ilegal num estabelecimento que devia estar encerrado. É vê-los alinhados de 2 em 2 metros, como mandam as regras. Só falta atirarem cartas uns para os outros e escarrar ruidosamente para o chão. Talvez quando estiverem realmente embriagados, porque ainda está para nascer o bicho que o medronho não mata.

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