Crónica de um vírus - Dia 21: Amor Subversão


A história repete-se porque é esquecida. As estórias do costume também. Só mudam as moscas.

A polícia procura colaboracionistas. Pede às pessoas que os informem se virem ajuntamentos e incumprimentos. Cria-se um informador em cada cidadão para os tentáculos da autoridade chegarem a todo o lado. Mais do que o medo, aproveitam o ressentimento. O concurso de popularidade em que se tornou ser o cidadão mais respeitador das regras. Se um não vai à praia, porque pode o outro ir? Conceitos vagos, regras imbecis que não resultam em nada. Excepto em conflito e confronto.

Seja qual for o cenário, o princípio é sempre o mesmo: sob a égide da ilegalidade cabe tudo o que qualquer governo decidir. Seja manifestar, comer, respirar ou piscar os olhos.

Posso sair de casa para comprar tabaco, não posso sair de casa para amar. Posso encher os pulmões de fumo mas não me é permitido ter o coração a transbordar de amor. Pelo menos da espécie que não é tributável. Encorajam-se os vícios lucrativos, proíbem-se os subversivos.

Quantas paixões adolescentes não terão sido destruídas por decreto governamental. Quantos flirts ficaram sem concretização, quantas conversas inspiradoras não ficaram por realizar. Desautorizados pelo governo e proibidos pelos pais.

Rezo para que, na calada da noite, haja pelo menos um adolescente rebelde em fuga. Escapando-se de casa em silêncio, esforçando-se para não tocar nos botões do elevador, sustendo a respiração no trajecto, empurrando a porta da rua com o ombro para conseguir um beijo furtivo. Uma carícia libertina. Uma mão atrevida dentro das cuecas.

Um puto a fazer dezenas de quilómetros numa BMX por estradas secundárias mergulhadas nas trevas, assombradas pela sombra dos postes eléctricos, tenuemente projectada pela lua em quarto crescente. Ao longe, um cão uiva e de imediato, dezenas de outros cães uivam também, denunciando o crime. Um gato estaca, imobilizado, sobre a tampa de um caixote do lixo, com os olhos a explodir de maléfico brilho felino.

De súbito, um carro da política cruza a rua em frente. O jovem mergulha então ainda mais nas trevas. Apressa-se, com o cabelo a ondular ao vento, os brincos a tilintar com o movimento. Chega finalmente ao destino. Envia um SMS a informar onde está. A namorada desce e dá-se um beijo urgente. Depois mais. As mãos percorrem os corpos, os cabelos confundem-se. A respiração torna-se ofegante. É um amor ilegal, o maior afrodisíaco da história.


O ímpeto é mais poderoso do que qualquer vírus ou medo. Mais forte do que qualquer paranóia telefabricada.

- Não vale a pena viver em isolamento para salvar uma vida de sofrimento.

Os dois jovens agora, querem tudo. Dão rédeas soltas ao desejo. Ninguém lhes consegue apagar a sensação de invencibilidade. Ou então, nada disso acontece e o namoro continua apenas pela internet. Tudo civilizado e ordeiro, de acordo com a lei e a moral. Para salvaguardar um futuro não muito diferente do passado. Aquele momento não passou duma fantasia. Mais uma fantasia, no meio de tantas. Por dentro duma realidade dormente.


Para que possamos continuar a enganar-nos. De que o que queremos é realmente o que queremos. Voltar ao normal é uma anormalidade maior do que o novo normal.

Realizaremos tarde demais que, não queremos sacrificar calmos dias de primavera, sem destino. Deitados numa toalha de praia estendida num terreno baldio próximo de casa. Onde as abelhas descobrem as buganvílias e voam em felicidade. Observando a dissolução das nuvens umas nas outras.

Poderemos ter tanto medo da próxima quarentena que precisaremos de reapreciar o que demos por garantido durante tanto tempo.

Olhar para todas as coisas que temos, para todas as coisas em que deixámos bocados de nós e pensar que tudo não passa de merda. Não valem o preço que pagámos por elas. Não em dinheiro, mas em existência. Ou talvez continuemos apenas na aceleração vertiginosa em direcção à auto-destruição. Como o verdadeiro normal. Não aquela fantasia de que tudo vai ficar bem. De que tudo alguma vez esteve bem.

Cumprir uma profecia, realizar um destino. Não um fim. O Fim.

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